Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

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13 de fevereiro


São 21h45min e todos os sinos da cidade começam a badalar. O som dos sinos foi uma das minhas primeiras impressões da cidade, mas se no primeiro post eu escrevi que eles eram uma homenagem à Virgem Maria, dessa vez eles são uma homenagem aos mortos.

Aos que morreram na 2ª Guerra Mundial. Aos que morreram nesta cidade de São Beno nos ataques aéreos dos dias 13 e 14 de fevereiro de 1945. Àqueles que assistiram a Florença do Elba derreter pelo fogo que caiu do céu.

É uma quarta-feira de Cinzas (inicio do tempo cristão de reflexão) e como sempre, ocorre nesta cidade uma marcha daqueles que têm a extrema-direita como opção política, uma escolha individual legítima. Ouve-se sobre a “marcha nazista” tão logo você pisa aqui e tal qual sobre a “marcha antinazista”. Ouve-se muito, imagina-se ainda mais – e no final não é nada do que se fofoca.

(Esse texto não é para defender nem condenar o ataque em si (muito embora eu ache válido o esforço militar para dar celeridade ao fim da guerra)).

Pela quantidade de policiais presentes na cidade, em locais pouquíssimos prováveis de vê-los como shoppings e escolas, pensei que haveria uma grande baderna, um simulacro da guerra, mas peca-se melhor pela precaução que pelo acaso. E no final, nem vi os ‘nazistas’.

O que foi a 2ª Guerra? Uma caixa de pandora aberta pelos alemães que exigiu um esforço gigante da URSS, dos EUA, do Reino Unido e de todos os aliados para fechar a tampa e sequer encontrar Esperança; na Europa. Para mim 2ª Guerra sempre foi um distante período de grande avanço tecnológico, muitas pessoas mortas, histórias de coragem, oportunismo brasileiro, alemães vilões, muita literatura e um monumento no Aterro do Flamengo aos soldados brasileiros que lutaram na Itália (sentando-lhes a pua).

Nem eu nem nenhum brasileiro médio foi a uma cerimônia específica em homenagem aos mortos na Grande Guerra Patriótica, como os russos a chamam e comemoram solenemente dia 9 de maio. No máximo há um ala para os pracinhas nos desfiles de 7 de setembro.

Passar essa data tão significativa ao lado daqueles que considero culpados pela guerra foi uma experiência bem diferente, estranha e valorosa. A começar porque a vida humana do Eixo é igual a vida dos Aliados, e ao som dos sinos me juntei a silenciosa homenagem dos alemães a seus mortos; também tive parte numa manifestação contra os nazistas (mas ainda acho que liberdade partidária é fundamental para democracia, mesmo que seja em defesa de partidos extremistas).

A cidade recuperou-se bem das bombas, ainda há espaços vazios e construções estalando de novas. Minha percepção é que Dresden tem muito mais cicatrizes do tempo comunista que do bombardeio de 1945. Os Dresdner (habitantes da cidade) empenham-se na demonstração de pluralidade e tolerância – um contraponto da manifestação que defende a Alemanha somente para os alemães.

Bomber Squad

Monumento aos pilotos de bombardeiros em Londres. De costas. O ataque é moralmente questionado até hoje, e como qualquer ato de guerra sempre o será. Foi fundamental para quebrar a infraestrutura nazista ao sul de Berlim, apoiando as tropas soviéticas e garantido o fim da Guerra na Europa.

De boas intenções o inferno está cheio. Essa marcha antinazista acaba gerando mais distorções a médio e longo prazo que benefícios. Alguns pontos. Fechar agremiações e partidos políticos é exatamente o que Hitler e sua trupe faziam: em uma democracia estável todos devem coexistir, até mesmo os extremistas. A manifestação da direita é pequena, muito pequena e diminui a cada ano, a da esquerda é muito maior, dá muito mais visibilidade a um partido nanico (o NPD não tem uma cadeira sequer no parlamento federal em 2012).

Nazi auf marchen

Corre-se o risco da razão ficar caída e escondida entre interesses divergentes. De ficar relegada a uma simples placa ou palavra de ordem. Ou simplesmente mudar conforme a estação, a temperatura, o carisma etc

Saindo do marketing e entrando na ideologia posso afirmar que uma suástica é muito menos perigosa que um preconceito enraizado e mascarado. Numa fila de mercado ninguém atacará abertamente em nome do Führer, mas diferenciará um estrangeiro, moldando percepções e direitos civis conforme a cor, a religião e o sotaque variem. Isso é tão ou mais perigoso quanto um preconceito aberto e declarado. Nesse ponto Dresden (e grande parte dos locais da cortina-de-ferro) ainda não se recuperou, muito mais esforço precisa ser feito: muito mais que pendurar cartazes bonitos em cada esquina.

É uma data complexa. Bombas, suásticas, ideologias, emoções, política, preconceito, tudo se mistura. E fomenta uma discussão bem interessante num momento que a presença estrangeira cresce na Alemanha (e em quase todos países ricos), que a geração pós-muro começa a chegar ao mercado e ao poder. Espero que os alemães não precisem da liderança de outro austríaco-lunático-bom-de-papo para acharem seu ponto de equilíbrio.

Mas… Isso é politica alemã para os alemães; cabe a eles decidirem o que querem. De acordo com a Lei Brasileira todos podem falar, desde que a fala seja assumida (prazer, sou Leandro), e essa é minha opinião. Acredito igualmente que democracia e liberdade (de qualquer direito) não se relativizam, mesmo que permita uma agremiação de extrema esquerda/direita chegar ao poder.

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Links que ajudarão a contextualizar a manifestação, bombardeio, protestos.

Site oficial da cidade sobre a data -> http://www.13februar.dresden.de

Informação da Wikipedia inglesa -> http://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Dresden_in_World_War_II

Site da manifestação contrária ao NPD -> http://www.dresden-nazifrei.com

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Guerra é feia. É boba.

Centro do mapa


A cidade é linda. Em ambas as margens do Elba tem-se um lugar para descansar, apreciar e pensar.

A Europa não está a toa no centro do planisfério. A Alemanha também não está no centro da Europa a toa.

Seja pela cruz ou pela espada, a cultura européia se difundiu pelos quatro cantos do planeta, sem exceções. Seja pelo comércio britânico, a Engenharia alemã, as embarções portuguesas, o luxo francês, a espada espanhola ou pela religião de Roma, cada pedacinho do planeta Terra deve tributos ao Velho Mundo. O Ocidente deve-se inteiramente; o Oriente, também.

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Era um típico final de inverno. Os corvos anunciavam o final do dia. Aos dez minutos para as 18h, os sinos começam a dobrar. Alta e belamente. Suave e profudamente.

Às 18h os sinos dobram com intensidade de sentimentos dobrada. É a hora da Ave-Maria. Os sons vêm das igrejas luteranas, católicas, anglicanas, ortodoxas. Todos os povos prestam homenagem à Mãe de Deus.

Nessa hora um homem olha o relógio e continua andando. Eu tiro a boina por respeito. Os corvos se calam. As crianças gritam e correm alegres pela Hauptstraße. Algo surge de especial no ar. E era algo bom. Eu estou na Europa.

O tapete cor de rosa formado pelas flores, ainda pequenas, contrastava com as árvores desfolhadas. O frio congelante do ar contrastava com o calor que cada homem e mulher tinha.

O lindíssimo visual das praças, das flores, da estátua dourada, da perfeita harmonia do todo e do rio Elba somado ao entorpecente som dos sinos das igrejas me fazia sentir num sonho, estava num lugar etéreo. Contudo, estava na Alemanha.

Desde sempre as terras germânicas me chamavam a atenção pela sua história, por sua grandeza e riqueza. E num repente do destino com as bençãos da Providência aqui estou eu.

Os colegas do Brasil me solicitaram que escrevesse as impressões que estou tendo. Ora pois, é impossível. Como posso falar num simples post as caracteristicas de um país formado por estados quase tão antigos quanto o tempo? Certas coisas não podem ser expressas de forma lata, se grandes mentes não o souberam fazer, não será este modesto blogueiro que o saberá.

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Grata surpresa ao achar, numa das muitas praças, uma Esfera Armilar. Afinal, mesmo o centro do mapa precisa de instrumentos de navegação para ser compreendido e navegado.

Estou numa cidade de Tradição luterana, cujo último rei foi católico e sob o domínio soviético virou atéia. Muito embora a religião não seja assunto maior aqui, o maior emblema da cidade é uma igreja.

Uma capela feita para o bispado católico, vira uma igreja luterana, que é destruida na segunda guerra. Foi restaurada como símbolo de união. Que impressiona qualquer um que a visite. Especialmente se o visitante for à “sala da destruição”: é uma sala no subterrâneo da igreja que não foi restaurada, ficou intocada desde o fim da guerra. Até hoje se veem a cruz de pedra e parte do altar, quebrados. O cheiro é pesado. Cheira a destruição, a poeira, a morte. De uma aflição sem igual.

Ainda outra história triste. Estava saindo da missa e escuto um sino a badalar loucamente. Vou atras dessa igreja, guiado somente pelo som. Veja sua torre imponente, ao chegar dou de cara com um cemitério, ao observar melhor vejo que é uma igreja fantasma, totalmente destruída! Somente seu sino a cantar, como uma sina. Uma lembrança perpétua dos horrores da guera.

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De limpeza e organização impecáveis, os habitantes sentem-se verdadeiros bad boys ao atravessarem com o sinal fechado. É engraçado. E graça não é coisa comum, o maior trocadilho que vi aqui até agora foi CarGo Tram. Engraçado? Nein.

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Europeu dança muito mal.

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A estrutura da universidade é muito boa. Digna de um país que está no centro do mapa.

A organização do sistema alemão de ensino/pesquisa/indústria é muito boa. Digna de um país que além de estar no centro do mapa é a segunda maior economia do Ocidente.

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E não convem falar mais. Esse post ficou parecido com os de temas-livres “Alguns casos I e II“. Para saber mais é só pegar um vôo de 15h, conexão inclusa, para cá.

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Era um típico começo de primavera. Aproximavam-se das doze horas. Um dia frio, como quase todos aqui; um dia bonito, como quase nunca se vê aqui.

Os sinos tocavam novamente para homenagear Maria.

Os sinos sempre tocam nessa cidade, “os sinos dobram acima de qualquer momento humano passageiro“.