Domingo inatingível


Domingo termina com um engavetamento, 3 carros se aglutinando em frente a minha janela. Ao acaso passa um carro da polícia, claramente queria ir assistir Faustão, mas o dever o chamou. Estressados algemam e prendem um senhorzinho.
No restaurante, almoçando no balcão do restaurante, longe do tumulto do salão, sai a cozinheira correndo, com uma mão segurando firmemente um pano tingido de vermelho. Havia acabado de se cortar. Ótimo para destruir uma segunda-feira que pedi filé de peixe, arroz e purê de batata.
Próxima sexta-feira começam os Jogos Olímpicos de Verão Rio 2016. Deus ajude que tudo fique bem.
Segui o dia.
Mil cairão a tua esquerda, tantos outros à direita: não fui atingido pela realidade de ninguém. Pude ficar em Paz com minha solidão.
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Escrevi isso em um domingo qualquer.
E os Jogos Olímpicos foram um sucesso retumbante graças a Deus. Nunca vi o Rio tão lindo.
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Bilhete Único de Macho Inflacionado


Suponhamos que num sábado de manhã sua mãe peça para você trocar uma peça de roupa que ela comprou mais cedo. Entre o centro comercial e sua casa, são menos de 2km em uns 4 minutos de ônibus. Como há redundância de linhas, posso usar o bilhete único e pagar apenas os R$3,80¹ de uma passagem.

Não há muito o que falar, como esperado fiz tudo dentro do período de 2h30² e nem olhei o relógio, confiava no meu taco que faria tudo rápido, sem interrupções. E fiz 🙂

Como podem ver no screenshot do Swarm, fiz tudo em menos de 10 minutos (incluindo o café, sempre dá tempo para tomar um café, nesse caso foi um moka ice blend delicioso). Como também podem ver, eu só fui a tarde 😉

Screenshot BU macho

Usem transporte público!!

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E uma observação: após efetuar a troca da roupa, a atendente, uma moça bonita diga-se, se vira de um jeito todo-todo, e me pergunta: “você já tem o cartão da Riachuelo??”.

Outra observação: fui e voltei em ônibus de ar condicionado, que nesse varonil calor veranil cai muito bem.

¹ No último texto, de 2010, a passagem era R$2,40!!

² No último texto, de 2010, o período de integração era de 2h.

Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

London Underground

Imagine


Imagine um londrino, que num dia chuvoso de outono – como sempre são os dias por lá- resolve desembarcar umas estações antes para passear pelo Hyde Park, ver as árvores, suas folhas amarelas antes que a neve roube todas as cores – e tudo num branco gelo padronize. O preto das pesadas roupas e o branco das copas: um curioso baralho de uma Rainha só.

Imagine um parisiense, que num novembro chuvoso e de céu pesado resolve mudar seu percurso. Anda pelo Campo de Marte. Para e observa a majestosa e soberana Torre Eiffel, antes de ganhar a artificial iluminação natalina (se já não é o Natal artificial o bastante).

Imagine um carioca, que por falta de opção desembarca longe de seu destino num dia chuvoso de novembro, mas de primavera; atravessa sob uma deliciosa garoa a Quinta da Boa Vista. A casaca fica só sobre os ombros, não vestida, faz calor. A história do lugar promete uma Boa Esperança a todos.

O londrino entra no Tube¹; o parisiense vira o Trocadéro²; o carioca sonha em se perder no cinza de Londres e de Paris.

Imagine quem foi mais feliz.

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¹ Tube é como chamam o metrô londrino.

² Jardins do Trocadéro é uma localização em frente a Torre Eiffel, mas do outro lado do rio Sena.

De estudante Para D. Pedro II


de: estudante@futuro.brasil

para: pedroii@imperador.brasil

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Saudações, Vossa Majestadade e defensor perpétuo do Brasil,

quem se atreve a lhe incomodar é um súdito da Província da Corte, da Capital Imperial o Rio de Janeiro. Eu escrevo esse email para queixar-me a ti de alguns problemas que ocorrem 123 após o golpe de estado que lhe roubou a Coroa.

Primeiro começo com as queixas sobre o Rio. Desde que resolveram tirar a Capital do litoral e pô-la no planalto central, nossa cidade sofreu um esvaziamento terrível. Eu devo dizer que desde 2007 grandes eventos têm ocorrido, e em função deles estão dando mais atenção e carinho. Mas o problema é que por muito tempo deixaram a Cidade Maravilhosa a sua sorte, dai muitos problemas cresceram e outros vieram.

Exemplifico. A Quinta da Boa Vista, sua casa, virou um museu que por anos ficou sem cuidados, a faixada caiu e mudaram de cor. Sabe os cortiços formados pelos pobres que voltaram da guerra? Então, viraram coisas ainda mais desumadas, chamadas favelas; e elas infelizmente se espalharam por muitos dos lindos morros do Rio. Com isso aumentou a violência, consumo de drogas etc etc. Recentemente, só muito recentemente, o governo começou a tentar mudar o quadro.

Com muito pesar, poderia dar muitos outros exemplos de coisas ruins e tristes que aqui ocorrem. Não me prendo em falar as boas porque para isso tem a televisão e os jornais. Eles só publicam coisas boas.

O Brasil mudou muito. O país como um todo mudou muito mais que nossa cidade, e mudou para melhor, muito embora gritantes assimetrias ainda existam.

O Estado não tem mais religião ofical, a Língua Portuguesa continua sendo o idioma oficial, nossas fronteiras são mais ou menos as mesmas. A pobreza tem diminuído, nossa economia cresce e se diversifica (Visconde de Mauá ficaria feliz), o Brasil começa – finalmente – a se projetar como um potência. Nossa nação ficou muito mais complexa que era nos tempos do Império, o que exige mais dos eleitores e governantes.

Seu Exército e sua Armada, grandes vitoriosos nas guerras em defesa pela nossa nação, foram sucateados (resolveram criar outro ramo, a Força Aérea, depois eu explico como funciona). Nossa produção cultural, embora ainda muito boa, é dia após dia contaminada por “arte-instantânea-importada”. O senhor, como grande admirador das Belas Artes, ficaria muito triste como a arte é feita/embalada/vendida/marqueteada. Eu disse que as notícias boas a imprensa dá conta, nem tanto nem tanto. Há muitas coisas boas sem anúncio, como a Escola de Artes do Parque Lage (localizada no lado sul do seu amado e querido Maciço da Tijuca), movimentos populares de replantio em montanhas da Zona Norte da cidade e outras iniciativas que seus súditos têm.

Os vizinhos continaum dando problemas. Na verdade, ao invés do Paraguai, agora o problema agora é Bolívia e Venezuela, no norte. Pelo sim pelo não, precisamos de mais duques de Caxias em nossas fileiras…

Infelizmente o mundo só reconhece o Brasil como uma país tropical, com belas selvas, praias e animais. Ignoram nossa cultura. Ignoram nossa Ciência, nosso passado de um grande Império. Do Rio, sabem todas as praias, mas não sabem sequer uma grã-Academia, o Municipal, o CBPF, uma igreja. Isso me deixa triste.

De resto é isso. Gostaria e agradeceria bastante se Vossa Majestade pudesse mais uma vez ajudar esse país, essa grande nação grande. Que seus pavilhões e gestos possam ser lembrados em Brasília (a nova capital) como exemplos de um grande governante. E é isso que o País precisa: um grande estadista!

Precisamos novamente de um Pedro. Seja I para bradar a liberdade, seja II para desenvolver!!!

Atenciosamente,

Leandro Santos, um modesto súdito estudante de nível superior, provinciano da Corte, dos subúrbios da EF dom Pedro II.

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Obrigado Elio Gaspari pelo formato do texto.

Carnival in Rio de Janeiro


A magic city in magic time – living abroad for a long time is a wonderful and unique opportunity to better understand not my host country but me and my own place.

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Carnival is for sure the most famous “event” from Brazil; and Rio’s one for sure is the best known – not only because it’s the biggest, probably the best, the one in Marvelous City, but because it’s magic, yes, magic!

I never was a carnival alike guy, never liked the extremely crowded parades, however there’s a carnival I do like.

It is well described in the video. The simple carnival with simples costumes, old songs (in Portuguese ‘marchinhas‘), happy people, people who dare to struggle the whole year, but they need a rest, they need and deserve this 4-day rest. We all do. When I was a kid, my favorite trick was throw confetti in everybody according to the beat of the marchinha. In the end of night, i.e. ~11pm for me, the songs were slow and kinda sad, my confetti’s bag was almost empty, time to mom pick me to bed. I still had three more days.

Definitely carnival is the Brazilian time. Like Oktoberfest in Deutschland. Nowadays carnival is similar to a company, Carnival S.A. (Brazilian people love saying “carnival time is alienation time, waste of money and time bla bla bla”, maybe they are right, but it’s not my point here). The old-fashioned pre-Lent time is the best, without any exception or fallaciousness perception, representation of Brazilian society.

Mixed people, all sort of colors, costumes, accents, wealth and nationalities. Far from the luxury of Samba Schools, the popular parades try to rediscover our traditions. One of the most traditional blocos (Portuguese for ‘carnival parades’) is Cordão do Bola Pedra, last year gathered 1,5+ million people, too much people for its original purposes… still.

I wont describe the structures, the colors, the way people dance, the smiles. These are just stereotypes, go there and see. Germans are not only potato, Americans aren’t only obesity. Travel and see. Travel and grab a chance to throw confetti and serpentine in someone else. Join the carnival, no more tardiness. Because please, believe me, very few things in life are better than after the great party go to a Café nearby the beach. And rest and live.

Wednesday is just in the corner…

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In general I really dislike long films from Brazil, but the short films are often good. This one is a piece of cake.

At least for me. In North Hemisphere is common the expression ‘summer love’, in Brazil we have ‘carnival love’. This short talks a bit about it, there are a long list of marchinhas singing this kind of love; I had one summer love, that could perfect fit in any Cordão do Bola Petra ou do Boitatá ou na Marquês de Sapucaí.

No youtube nor vimeo link, so here you go.

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The 4-days are just extraordinary nights in the city. There is a music (a poem from Murilo Mendes and sound from Moacyr Luz) called “night at the city of Saint Sebastian of Rio de Janeiro” so cheerful. Rio is a magic and a wonderful city. The city of one thousand hugs!

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tão gostosa.
Que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.

Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros.

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Ich weiß wirklich nicht, weil ich auf Englisch schrieb. Fare il blog internazionale?

Texto do quando


Quando o comandante anunciar que estamos sobrevoando águas brasileiras, sentirei algo novo. Experimentar sensações novas deixou de ser novidade, cada dia do último ano apresenta-me algo diferente.

Quando as aeromoças solicitarem que os cintos sejam presos, saberei que dentro de mais um minuto vamos pousar. Nesse momento olho pela janela, vejo as montanhas que Cabral reclamou à Sua Majestade o Rei de Portugal alguns anos atrás. Voamos em cima de Niterói, é preciso fazer a curva para acertar a pista. Tantas vezes já voei sobre essas terras, mas dessa vez é diferente.

Quando o avião virar, verei a mais bela vista. A vista que Deus e os santos têm da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Talvez por isso a cidade seja tão maravilhosa, um brinde extra para quem está no Céu.

Quando eu voltar, será dia. Quero ver do avião a Zona Sul; as praias da Urca, o Pão de açúcar, toda gente bonita de pele morena que perambula pela praia do Arpoador. Quero ver das janelas do taxi na saída do Galeão à Zona Norte; a feiura do Caju, os edifícios da Presidente Vargas, na Radial Oeste ver o Maracanã, minha faculdade, as torres das igrejas que se projetam sobre a paisagem, as estações de trem, o samba de Madureira.

Quando eu voltar, será verão nas terras do sul. Rio 40º, cidade purgatório da beleza e do caos nas ruas cheias da Saara. Suor nas caminhadas pelas ruas do meu provincial bairro português.

Quando eu voltar, verei a noite chegar. Com a brisa que vem do mar. Verei o Cruzeiro do Sul, pequeno mas imponente no firmamento. Firmamento do Rio de Janeiro, que figura perpetuamente na Bandeira Nacional. É o céu do Rio de Janeiro que representa o Brasil no universo entre as nações.

Quando eu voltar, comerei todas os pratos. Feijão, melancia, churrasco, comida da mamãe. Suco de caju e bolo de fubá.

Quando eu voltar, não importa onde esteja na cidade, verei o Corcovado, o Cristo Redentor, com seus braços abertos sobre todos cariocas, sobre a Guanabara, refulgindo de estrelas claras. Que lindo!

Quando eu voltar, eu sentirei saudades da Germânia, mas ai é outro texto.

Mas quando eu perceber que esse texto está um pouco longe de se concretizar…