Aquela coisa


Sabe aquilo? Aquela coisa mesmo que sentimos? Algumas coisas só sentimos uma vez na vida, outras sentimos mais de uma vez; e querendo sempre mais nos consumimos numa busca. Pode ser num corpo da mulher amada, numa mesa de bar sozinho ou com amigos, numa igreja, no silêncio duma floresta ou até mesmo dentro de você.

Existem prazeres pequenos e intensos, já escrevi sobre eles – mas daqueles que são bem definidos, que já foram testados e classificados. E as coisas que não se apresentam?

Então, sabe aquela coisa que não se define que não se encaixa em nada e que não se diz? Chico Buarque tentou descrever (“o que será que será”), e mesmo com sua genialidade musical não conseguiu. É f*d*.

Por fim, dou-me conta que só escrevi dos prazeres efêmeros e momentâneos, como ir e voltar em menos de duas horas; mas para mim, vida é a soma discreta dos pequenos e instantâneos momentos que nos apresentam. Não sou biólogo, não sei explicar a tal coisa no corpo nem sociólogo para explicar na sociedade (e nas partes que compõem a sociedade). A bem da verdade, têm alguns textos sobre o “prazer eterno”, alguns chamam de religião.

Interessa-me saber se a vida é soma continua ou discreta. Acho que é discreta.

 

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London Underground

Imagine


Imagine um londrino, que num dia chuvoso de outono – como sempre são os dias por lá- resolve desembarcar umas estações antes para passear pelo Hyde Park, ver as árvores, suas folhas amarelas antes que a neve roube todas as cores – e tudo num branco gelo padronize. O preto das pesadas roupas e o branco das copas: um curioso baralho de uma Rainha só.

Imagine um parisiense, que num novembro chuvoso e de céu pesado resolve mudar seu percurso. Anda pelo Campo de Marte. Para e observa a majestosa e soberana Torre Eiffel, antes de ganhar a artificial iluminação natalina (se já não é o Natal artificial o bastante).

Imagine um carioca, que por falta de opção desembarca longe de seu destino num dia chuvoso de novembro, mas de primavera; atravessa sob uma deliciosa garoa a Quinta da Boa Vista. A casaca fica só sobre os ombros, não vestida, faz calor. A história do lugar promete uma Boa Esperança a todos.

O londrino entra no Tube¹; o parisiense vira o Trocadéro²; o carioca sonha em se perder no cinza de Londres e de Paris.

Imagine quem foi mais feliz.

**–

¹ Tube é como chamam o metrô londrino.

² Jardins do Trocadéro é uma localização em frente a Torre Eiffel, mas do outro lado do rio Sena.

Descendo as escadas


Se você quiser um jeito rápido para levar sua vida de forma miserável, triste e nostálgica, basta pensar na passagem do tempo, buscar a todo custo viver num passado tão distante que você nem se lembre mais.

Como eu sei disso? De todos os livros que li, os mais tristes livros que li, o passado  sempre se passa no presente – ou como eu disse no primeiro parágrafo na busca pelo passado.

Eu não tenho certeza-plena para gritar, então me limito a escrever minhas próprias dúvidas. Creio que um dos piores e mais devastadores sentimentos que tenho é a contemplação da nostalgia melódica de um determinado momento do passado [ou do futuro, o que em essência é ainda pior, visto que os humanos também chamam a contemplação do futuro de expectativa]. Em um livro me disseram que a gente só é feliz uma vez, que não vale a pena lembrar-se de momentos, visto que nunca se repetirão; noutro livro me cochicharam que a coisa mais terrível é alterar/esquecer o passado, por isso devemos sempre lembrar.

Posso afirmar que o parágrafo anterior é o mais esdrúxulo enxerto de texto que já teclei; afinal julgo idêntico aos textos chatos e “sem significado” que lia na escola sobre o bicho homem nas aulas de ciências sociais. Eu não sou muito entendido das ciências humanas, mas acredito que a leitura de textos antigos sejam de suma importância para… qualquer coisa. E sem ironia.

Evito levantar hipóteses sobre o tempo, mas as vezes elas me vêm, uma epifania, um insight.

Pode ser numa madrugada de solidão, numa aula, numa conversa, na observância do mar.

Pode ser quando uma criança desceu velozmente as escadas de acesso estação ferroviária. E eu me percebi segurando o corrimão firmemente, com medo de ser atingido por ela.

Pode ser quando eu me lembrei que alguns anos atrás eu próprio subia aquelas escadas tão rápido quando a gravidade me permitia, de formas diferentes, de 2 em 2 degraus, galopando, com um pé só, de 3 em 3 degraus…

E que me desculpe a estabilidade emocional, que meu cérebro tanto tenta manter, mas parei e me lembrei das escadas (e de alguma forma lembrei também da chuva que via pela janela do meu apartamento).

Amanhã eu as subirei de 2 em 2 e descerei galopando!!

**–

Catarse. s.f. purificação emocional. PSI Terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal dramática, emocional de traumatismos recalcados.

Pela santa batata, não é medo da idade, nem trauma pela lembrança de algo dramático. É apenas um rascunho de crônica 🙂

Dúvidas e contemplações da infância


Eu estava numa palestra sobre o novíssimo Laboratório de Nanotecnologia do CBPF – o diretor do Centro estava explicando a importância científica, política e social; o físico falando da expansão das fronteiras do conhecimento; o engenheiro falando sobre os aspectos de construção, operação, manutenção e aplicações de ordem prática. Na fala do engenheiro, muito mais fluente, tangível e engraçada, a minha mente saiu voando a partir do momento que ele fez uma piada com plasma e fogo. A platéia era composta principalmente por estudantes de Engenharia e Física, profissionais já formados (e doutorados) e por um solitário e curioso senhor de trajes simples e barba serrada.

A piada sobre o estado físico do fogo me lembrou que essa era uma das grandes dúvidas da minha infância. A tia do colégio ensinou que eram três os estados da matéria, sólido, líquido e gasoso. Mas e o fogo? Era o que? Grande dilema, grande dilema… Eu fiquei um longo tempo refletindo se alguma coisa ocupava meu esforço intelectual da primeira infância mais do que essa questão.

A idéia de escrever esse pequeno post veio quando precisei de uma caixinha para guardar uns componentes eletrônicos (de um circuito projetado por mim, a criança aprendeu alguma coisa de Eletrônica com o passar do tempo) e levar à faculdade. Ao pegar duas caixinhas de fósforo, tirar os palitos de uma e por na outra me veio à memória que isso era uma das minhas brincadeiras favoritas (e para profundo pesar da minha mãe, afinal as caixinhas ficam lotadas e os fósforos caiam); com essas caixas vazias eu construia várias coisas, aviões, navios, prédios, formas desformes … Como eu amava isso, como amava … Gostava tanto que certa vez pus todos os palitos de várias caixas numa caixa de pasta de dente somente para ter mais matéria-prima.

Achei curioso o fato de duas marcantes brincadeiras e dúvidas da infância voltarem a minha vida associadas a atividades de ensino de nível superior num momento bem singular da Escola de Engenharia. As dúvidas ficaram inacreditavelmente mais complexas, bem como os problemas. A simplicidade da infância sumiu, deu lugar a loucura do mundo dos adultos. Mas as coisas boas que conquistei até aqui só foram possíveis através desses ‘problemas’.

Não há dúvidas que a passagem da infância para a vida adulta não é fácil. Algumas civilizações impõem provas de morte aos candidatos. É um mundo de feras, um mundo sem amor e proteção da mamãe. Um mundo triste, um mundo sem contemplação. Lembro que amava contemplar as gotas de chuva caindo do céu, escorrendo pelo vidro da janela, o vento assobiando, eu sentado assistindo a natureza repetir mais uma vez aquilo que faz há séculos antes de eu nascer e fará por milênios após eu morrer.

Acredito fazer bem contemplar as nossas dúvidas, nossos medos, nosso silêncio, nosso eu. Quem sabe não ajuda a mitigar os problemas e sofrimentos cotidianos? Quem sabe não nos ajuda? Quem sabe não responde nossos questionamentos? Hoje eu sei perfeitamente o que é fogo, plasma, íons. Hoje eu sei que caixas de fósforo são para guardar fósforos. Mas ainda hoje eu me sinto fascinado pelas mesmas dúvidas de antigamente; quanto mais eu quero saber e sei, mais descubro minha ignorância – percebo que minha inteligência não mudou muito desde que era criança, apenas multiplei por um fator, mantendo a (enorme) diferença entre o que sei e o que não sei.

Curiosamente, é um mundo onde a maioria das pessoas precisa ter a simplicidade de um criança. Tantas pessoas desequilibradas psicologicamente, amedrontadas pela sociedade, consumidas pelo dinheiro… busquemos nossa infância de volta. Quem não gostaria de poder usar novamente a lancheira do “Rei Leão”?

Gozo momentâneo


Um simples prazer vulgar, vulgar usado no sentido de ordinário, ordinário usado no sentido de comum. Comum é cotidiano.

Cotidiano significa coisas do dia-a-dia, e cada ser humano tem um cotidiano diferente. São únicos, nunca se repetem e não há o risco de o cotidiano de um homem ser o cotidiano de outro homem noutro dia. Nunca.

(PS fora de lugar: Eu tenho dois cotidianos, a saber, o meu normal, explicado acima e um álbum de fotografias virtual)

O melhor filme do mundo para mim começa assim, a descrição de cenas do cotidiano sob a visão da protagonista. Enfiar a mão no saco de grãos, observar taças na mesa, quebrar coberturas de doces, falar em voz alta os preços do açougue etc. O que para mim pode ser idiota, para outrem pode ser o gozo dos gozos, ao menos naquele momento. Perde-se tempo demais buscando satisfazer os outros ou incomadá-los em seus prazeres ordinários. Nem uma coisa nem outra pode/deve ser feita, nem ajudar nem bisbilhotar: por excelência essa degustação é individual, seja sua produção seja seu consumo.

A motivação de escrever esse texto? Bem, #TODOSSABE que sou a favor do máximo respeito ao passado, a Tradição. Gosto de tecnologia; gosto tanto que não faço corte&costura; amo tecnologia. Contudo detesto aquelas que destruam o passado e seus vestígios. Tudo deve ser criado pensando no bem, comum ou individual.

Quando menor, meu inglês era mais deficitário (não que hoje eu seja C2) , tinha menos recursos, menos interações e/ou iterações sociais et cetera. Daquela época eu conservo um “hábito”, sempre que gostava de uma música (essencialmente a melodia, uma vez que não sabia inglês ou francês) guardava a canção tão seguramente quanto possível e a procurava até achar. Era uma tarefa difícil, árdua. E muito satisfatória ao final.

Hoje é mais fácil. Muito mais. Pego um pedaço da letra e jogo no Bing. Ou pergunto algum colega. Ou simplesmente saco meu telefone, que ‘escuta’ a música e rapidamente me dá todas as informações e ainda pergunta se quero comprá-la.

Simples? Simplíssimo veritas est.

Inverno

Nossos momentos são tão frágeis como as folhas das árvores; tudo muda ao sabor do vento e das estações.

Mas para onde foi o sabor da vitória de passar longos dias ou meses na busca da música? Foi para recycle bin. Somente eu sabia a sensação de vitória ao encontrar a resposta. Para você, estimado leitor, pode ser idiota mas não o é para mim. Conheci um ser humano que ficava bestificado ao ver vasos comunicantes, princípio para mim totalmente básico e inexpressivo. Se lembra do papo de “cada um tem seu saco de grãos para enfiar a mão”?

O ser humano gosta de, e precisa também, ser um bicho coletivo. Numa mesa de bar ou no estádio de futebol a massa se sente feliz, gosta de sentir o próximo. O povo brasileiro então nem se fala, sobretudo nesses tempos de Carnaval… E é igualmente indiscutível que nós também gostamos, e precisamos, de nossos momentos solitários.

Como esse post, essa vitória é sem sentido é simples é passageira é etérea é pessoal. Não há de se comparar com quando Júlio César marchou sobre Roma…

**–

Smiles. Essa é a música que me levou a escrever às 2h do dia 30/12/2011 o presente texto. É uma canção da britânica Lily Allen (quem é ela?!) que por si só me isentaria de entender a letra (ligeira aula de inglês da Rainha, lição única: substitua o ‘a’ o ‘u’ e o ‘e’ pelo ‘a’) que passou num intervalo do VH1.

É o gozo inoportuno do momento importuno!

Siderius Nuncius


Catorze de outubro do ano da Graça de dois mil e nove. Ano Internacional da Astronomia. Há quatrocentos anos, Galileu aponta pela primeira vez um telescópio para os céus (sim, a China…). E eu, hoje, aponto o meu.

Vejo Canopus, linda e soberana (Sírius não estava visível, como?!).

Fácil de ver

de achar e voi-la,

na ocular está

E como todos sabemos, mais universal que a Lei da Gravidade é Lei de Murphy: por uma semana, o céu que antes estava límpido e risonho, fechou-se ao chegar o telescópio. Ok…

Sem dúvidas, não tenho Hubble, mas já posso ver mais que a olho nu.

Feliz 😀