13 de fevereiro


São 21h45min e todos os sinos da cidade começam a badalar. O som dos sinos foi uma das minhas primeiras impressões da cidade, mas se no primeiro post eu escrevi que eles eram uma homenagem à Virgem Maria, dessa vez eles são uma homenagem aos mortos.

Aos que morreram na 2ª Guerra Mundial. Aos que morreram nesta cidade de São Beno nos ataques aéreos dos dias 13 e 14 de fevereiro de 1945. Àqueles que assistiram a Florença do Elba derreter pelo fogo que caiu do céu.

É uma quarta-feira de Cinzas (inicio do tempo cristão de reflexão) e como sempre, ocorre nesta cidade uma marcha daqueles que têm a extrema-direita como opção política, uma escolha individual legítima. Ouve-se sobre a “marcha nazista” tão logo você pisa aqui e tal qual sobre a “marcha antinazista”. Ouve-se muito, imagina-se ainda mais – e no final não é nada do que se fofoca.

(Esse texto não é para defender nem condenar o ataque em si (muito embora eu ache válido o esforço militar para dar celeridade ao fim da guerra)).

Pela quantidade de policiais presentes na cidade, em locais pouquíssimos prováveis de vê-los como shoppings e escolas, pensei que haveria uma grande baderna, um simulacro da guerra, mas peca-se melhor pela precaução que pelo acaso. E no final, nem vi os ‘nazistas’.

O que foi a 2ª Guerra? Uma caixa de pandora aberta pelos alemães que exigiu um esforço gigante da URSS, dos EUA, do Reino Unido e de todos os aliados para fechar a tampa e sequer encontrar Esperança; na Europa. Para mim 2ª Guerra sempre foi um distante período de grande avanço tecnológico, muitas pessoas mortas, histórias de coragem, oportunismo brasileiro, alemães vilões, muita literatura e um monumento no Aterro do Flamengo aos soldados brasileiros que lutaram na Itália (sentando-lhes a pua).

Nem eu nem nenhum brasileiro médio foi a uma cerimônia específica em homenagem aos mortos na Grande Guerra Patriótica, como os russos a chamam e comemoram solenemente dia 9 de maio. No máximo há um ala para os pracinhas nos desfiles de 7 de setembro.

Passar essa data tão significativa ao lado daqueles que considero culpados pela guerra foi uma experiência bem diferente, estranha e valorosa. A começar porque a vida humana do Eixo é igual a vida dos Aliados, e ao som dos sinos me juntei a silenciosa homenagem dos alemães a seus mortos; também tive parte numa manifestação contra os nazistas (mas ainda acho que liberdade partidária é fundamental para democracia, mesmo que seja em defesa de partidos extremistas).

A cidade recuperou-se bem das bombas, ainda há espaços vazios e construções estalando de novas. Minha percepção é que Dresden tem muito mais cicatrizes do tempo comunista que do bombardeio de 1945. Os Dresdner (habitantes da cidade) empenham-se na demonstração de pluralidade e tolerância – um contraponto da manifestação que defende a Alemanha somente para os alemães.

Bomber Squad

Monumento aos pilotos de bombardeiros em Londres. De costas. O ataque é moralmente questionado até hoje, e como qualquer ato de guerra sempre o será. Foi fundamental para quebrar a infraestrutura nazista ao sul de Berlim, apoiando as tropas soviéticas e garantido o fim da Guerra na Europa.

De boas intenções o inferno está cheio. Essa marcha antinazista acaba gerando mais distorções a médio e longo prazo que benefícios. Alguns pontos. Fechar agremiações e partidos políticos é exatamente o que Hitler e sua trupe faziam: em uma democracia estável todos devem coexistir, até mesmo os extremistas. A manifestação da direita é pequena, muito pequena e diminui a cada ano, a da esquerda é muito maior, dá muito mais visibilidade a um partido nanico (o NPD não tem uma cadeira sequer no parlamento federal em 2012).

Nazi auf marchen

Corre-se o risco da razão ficar caída e escondida entre interesses divergentes. De ficar relegada a uma simples placa ou palavra de ordem. Ou simplesmente mudar conforme a estação, a temperatura, o carisma etc

Saindo do marketing e entrando na ideologia posso afirmar que uma suástica é muito menos perigosa que um preconceito enraizado e mascarado. Numa fila de mercado ninguém atacará abertamente em nome do Führer, mas diferenciará um estrangeiro, moldando percepções e direitos civis conforme a cor, a religião e o sotaque variem. Isso é tão ou mais perigoso quanto um preconceito aberto e declarado. Nesse ponto Dresden (e grande parte dos locais da cortina-de-ferro) ainda não se recuperou, muito mais esforço precisa ser feito: muito mais que pendurar cartazes bonitos em cada esquina.

É uma data complexa. Bombas, suásticas, ideologias, emoções, política, preconceito, tudo se mistura. E fomenta uma discussão bem interessante num momento que a presença estrangeira cresce na Alemanha (e em quase todos países ricos), que a geração pós-muro começa a chegar ao mercado e ao poder. Espero que os alemães não precisem da liderança de outro austríaco-lunático-bom-de-papo para acharem seu ponto de equilíbrio.

Mas… Isso é politica alemã para os alemães; cabe a eles decidirem o que querem. De acordo com a Lei Brasileira todos podem falar, desde que a fala seja assumida (prazer, sou Leandro), e essa é minha opinião. Acredito igualmente que democracia e liberdade (de qualquer direito) não se relativizam, mesmo que permita uma agremiação de extrema esquerda/direita chegar ao poder.

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Links que ajudarão a contextualizar a manifestação, bombardeio, protestos.

Site oficial da cidade sobre a data -> http://www.13februar.dresden.de

Informação da Wikipedia inglesa -> http://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Dresden_in_World_War_II

Site da manifestação contrária ao NPD -> http://www.dresden-nazifrei.com

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Guerra é feia. É boba.

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