Memória fotográfica


Eu acho engraçado. Há alguns pequenos detalhes que guardo em minha memória que de tão pequenos, diria a lógica, é melhor registrar de alguma maneira, texto, foto, desenho etc. São coisas simples e do cotidiano mas também podem ser complexas e atípicas, uma instrução recebida da madrinha para lavar corretamente os copos, um percurso numa cidade que visitei, pessoas que me deram um bom dia e nunca mais vi, uma fotografia, enfim qualquer momento que eu estivesse presente (a rigor, meus devaneios mnemônicos também podem ser frutos de sonho ou deja vu que jurarei serem reais da mesma maneira!).

Sempre é bom também ver/sentir algo que te faz lembrar duma coisa que você jurava que tinha perdido para sempre na memória.

Dias desses me lembrei de uma praça de Copenhagen, nada especial, seguindo a rua principal sempre em frente eu vi um “carnaval” à lá dinamarquesa. Voltei à praça e segui numa outra rua menos movimentada, uma igreja luterana e ao final vi uma boate muito famosa. Me esqueci o nome da boate. Naturalmente fui a meus arquivos, pois qualquer turista teria fotografado tudo pelo caminho. Não achei as fotos. Eu não fotografei! Mas me lembro exatamente de tudo, como se eu tivesse um Street View próprio.

Grande questão: até quando? Grandes questões auxiliares: como? por quê?

  • Como uma vez perguntei a um professor qual era a capacidade de armazenamento do cérebro humano. Não tive resposta fiável. Desde então ponho o cérebro (incluindo o funcionamento da memória) no mesmo lugar dos dogmas. Apenas creia.
  • Por quê o que será que ocorreu naqueles instantes que me causaram impressão tão forte? Será que saber que um copo bem lavado não tem gotas escorrendo ou gravar as ruas de acesso a seu albergue num subúrbio de Århus ainda podem ser-me úteis um dia, já que não tenho nenhuma foto de um copo-modelo ou das ruas?
  • Até quando sei ignorar aquilo que me aflige. Se perder arquivos no PC me agoniam, perder minhas memórias então… Tenho muito medo.

Fotografar é a melhor coisa do mundo. Re(vi)ver as fotos é uma experiência tão única, que me faz sentir as emoções e sensações daquele instante, com um adicional espetacular: o filtro que o tempo impõe, ou seja, posso estar relembrando/invocando uma sensação errônea, sendo enganado por mim mesmo. Mas acho importante olhar para o passado e julgar as suas ações de acordo com a sua mentalidade à época. Julgar o passado com a cabeça de hoje seria injusto comigo.

Algumas vezes você perde, outras você ganha.

  • primeira vez que vi um Monet (Ponte japonesa) na 6ª série e de quando o vi de verdade no British National Gallery (admito quase ter chorado ao ver esse quadro – se me perguntarem porque gosto tanto dele, não sei).
  • música da digievolução dos Digimons que sempre me remete a primeira infância, onde assistia ao VHS da TV Globinho, porque estudava de manhã.
  • ficar deitado todo o final de semana e não querer jogar Mega Drive porque estava triste demais por causa da minha primeira “paixonite”, Bruna. Eu estava no ensino fundamental.
  • frio e a estranha sensação de liberdade absoluta ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
  • frio e a estranha sensação de morte súbita ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
    • sentir a morte quando meu pé afundou mais que deveria.
  • calma tão estranha que senti ao passear nas margens do Reno.
  • ser puxado pela maré para longe da orla e chacoalhado pelas ondas de Ipanema até a sensação de morte dar sinais inquestionáveis que aquele era seu último mergulho, mas conseguir chegar a superfície.
  • quando descobri que o Aterro do Flamengo pode ser um remédio tarja preta, que me vicia de ir lá.
  • primeira pessoa com quem falei nos meus dois últimos colégios antes de entrar na faculdade (se chamavam Daniel e Miguel).
  • quando aprendi como se fala guardanapo em alemão (e depois, muito depois, descobri estar errado)
  • quando consegui beber mais de uma garrafa de cerveja e só conseguia falar inglês (essa é particularmente bizarra pois foi minha primeira embriaguez e fiquei a noite inteira apontando as constelações para uma espanhola)
  • arrepio de ver um nazista.
  • beber o melhor vinho da minha vida (Deus salve Rioja!!)
  • escutar pela primeira vez a música ‘His world’
  • ver um prédio cilíndrico em Niterói, com um camelô vendendo bolas de tênis na entrada (acho que essa é minha lembrança mais antiga)

E tantas outras coisas que não faço ideia da razão de estarem tão bem indexadas. Ok, eu gosto. Gosto muito e agradeço ao Projetista Maior pelo fantástico e misterioso design do sistema que me permite fazer listas simples (sem qualquer tipo de ordem) com coisas valiosíssimas para mim.

Mas se me oferecessem uma forma de condensar minhas memórias em pílulas e guardá-las eu recusaria. Minha confiança reside na graça da minha memória.

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Só não me pergunte o que almocei, minha memória não é tão boa e não acho o Instagram uma plataforma culinária.

A foto é do primeiro ICE (trem-bala alemão) que peguei, Mainz-Leipzig-Dresden.

O nome da boate é Penthouse, que acabei não indo, pois fui a uma boate dos anos 60 naquela noite…

(The best) Glass of wine


A friend was leaving Dresden, her exchange was over. I opened a bottle of wine to salute this moment. Hence we didn’t drink the entire bottle, I put it in the fridge.

Others friends would leave Dresden, we would celebrate it too. And indeed we did, but nothing was like used to be. The city changed completely, I lost my friends, the extremely cold winter was in the corner, I was lost. I could write a complete saga about how much the city changed for the winter (and how it affected me), but not now, this is about my friends not about the sweet city of Dresden.

A few time has gone since their departure and I open my fridge.

I forgot the bottle of red wine. One night I desired to drink it. It was the best wine of my life. Not only by the drink itself (a very good Spanish), but the memories it turned into me. A flood of feelings and so. Somehow I knew I let memories in Russia, in Portugal, in many Brazilian states, in Japan, in Chile, in Germany. This feeling, of being remembered in various and different places, is nice, is a victory of life. Ok, it may sound like a self-help book, but people who have friends, in the strictest sense of the word, may know what I’m talking about.

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Many calendar’s pages have been changed since last time I touched this text, now I’m in Brazil, my homeland and I really don’t know what to add more here, maybe I don’t want to add.

This might work as an obelisk. Not supposed to do anything, just stay and stand here; one simple object to remember those times of summer, happiness and wine.

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The wine was a Murviedro Tinto Reserva. For me the Iberian wines are the best. The variants of the grapes there is better and more intense than any other. I could drink talk about the marvels from Rioja and Douro Valley (oh Tempranillo/Tinta Roriz), but not now, this is about my friends not about the sweet wine from Europe.

Vinho

13 de fevereiro


São 21h45min e todos os sinos da cidade começam a badalar. O som dos sinos foi uma das minhas primeiras impressões da cidade, mas se no primeiro post eu escrevi que eles eram uma homenagem à Virgem Maria, dessa vez eles são uma homenagem aos mortos.

Aos que morreram na 2ª Guerra Mundial. Aos que morreram nesta cidade de São Beno nos ataques aéreos dos dias 13 e 14 de fevereiro de 1945. Àqueles que assistiram a Florença do Elba derreter pelo fogo que caiu do céu.

É uma quarta-feira de Cinzas (inicio do tempo cristão de reflexão) e como sempre, ocorre nesta cidade uma marcha daqueles que têm a extrema-direita como opção política, uma escolha individual legítima. Ouve-se sobre a “marcha nazista” tão logo você pisa aqui e tal qual sobre a “marcha antinazista”. Ouve-se muito, imagina-se ainda mais – e no final não é nada do que se fofoca.

(Esse texto não é para defender nem condenar o ataque em si (muito embora eu ache válido o esforço militar para dar celeridade ao fim da guerra)).

Pela quantidade de policiais presentes na cidade, em locais pouquíssimos prováveis de vê-los como shoppings e escolas, pensei que haveria uma grande baderna, um simulacro da guerra, mas peca-se melhor pela precaução que pelo acaso. E no final, nem vi os ‘nazistas’.

O que foi a 2ª Guerra? Uma caixa de pandora aberta pelos alemães que exigiu um esforço gigante da URSS, dos EUA, do Reino Unido e de todos os aliados para fechar a tampa e sequer encontrar Esperança; na Europa. Para mim 2ª Guerra sempre foi um distante período de grande avanço tecnológico, muitas pessoas mortas, histórias de coragem, oportunismo brasileiro, alemães vilões, muita literatura e um monumento no Aterro do Flamengo aos soldados brasileiros que lutaram na Itália (sentando-lhes a pua).

Nem eu nem nenhum brasileiro médio foi a uma cerimônia específica em homenagem aos mortos na Grande Guerra Patriótica, como os russos a chamam e comemoram solenemente dia 9 de maio. No máximo há um ala para os pracinhas nos desfiles de 7 de setembro.

Passar essa data tão significativa ao lado daqueles que considero culpados pela guerra foi uma experiência bem diferente, estranha e valorosa. A começar porque a vida humana do Eixo é igual a vida dos Aliados, e ao som dos sinos me juntei a silenciosa homenagem dos alemães a seus mortos; também tive parte numa manifestação contra os nazistas (mas ainda acho que liberdade partidária é fundamental para democracia, mesmo que seja em defesa de partidos extremistas).

A cidade recuperou-se bem das bombas, ainda há espaços vazios e construções estalando de novas. Minha percepção é que Dresden tem muito mais cicatrizes do tempo comunista que do bombardeio de 1945. Os Dresdner (habitantes da cidade) empenham-se na demonstração de pluralidade e tolerância – um contraponto da manifestação que defende a Alemanha somente para os alemães.

Bomber Squad

Monumento aos pilotos de bombardeiros em Londres. De costas. O ataque é moralmente questionado até hoje, e como qualquer ato de guerra sempre o será. Foi fundamental para quebrar a infraestrutura nazista ao sul de Berlim, apoiando as tropas soviéticas e garantido o fim da Guerra na Europa.

De boas intenções o inferno está cheio. Essa marcha antinazista acaba gerando mais distorções a médio e longo prazo que benefícios. Alguns pontos. Fechar agremiações e partidos políticos é exatamente o que Hitler e sua trupe faziam: em uma democracia estável todos devem coexistir, até mesmo os extremistas. A manifestação da direita é pequena, muito pequena e diminui a cada ano, a da esquerda é muito maior, dá muito mais visibilidade a um partido nanico (o NPD não tem uma cadeira sequer no parlamento federal em 2012).

Nazi auf marchen

Corre-se o risco da razão ficar caída e escondida entre interesses divergentes. De ficar relegada a uma simples placa ou palavra de ordem. Ou simplesmente mudar conforme a estação, a temperatura, o carisma etc

Saindo do marketing e entrando na ideologia posso afirmar que uma suástica é muito menos perigosa que um preconceito enraizado e mascarado. Numa fila de mercado ninguém atacará abertamente em nome do Führer, mas diferenciará um estrangeiro, moldando percepções e direitos civis conforme a cor, a religião e o sotaque variem. Isso é tão ou mais perigoso quanto um preconceito aberto e declarado. Nesse ponto Dresden (e grande parte dos locais da cortina-de-ferro) ainda não se recuperou, muito mais esforço precisa ser feito: muito mais que pendurar cartazes bonitos em cada esquina.

É uma data complexa. Bombas, suásticas, ideologias, emoções, política, preconceito, tudo se mistura. E fomenta uma discussão bem interessante num momento que a presença estrangeira cresce na Alemanha (e em quase todos países ricos), que a geração pós-muro começa a chegar ao mercado e ao poder. Espero que os alemães não precisem da liderança de outro austríaco-lunático-bom-de-papo para acharem seu ponto de equilíbrio.

Mas… Isso é politica alemã para os alemães; cabe a eles decidirem o que querem. De acordo com a Lei Brasileira todos podem falar, desde que a fala seja assumida (prazer, sou Leandro), e essa é minha opinião. Acredito igualmente que democracia e liberdade (de qualquer direito) não se relativizam, mesmo que permita uma agremiação de extrema esquerda/direita chegar ao poder.

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Links que ajudarão a contextualizar a manifestação, bombardeio, protestos.

Site oficial da cidade sobre a data -> http://www.13februar.dresden.de

Informação da Wikipedia inglesa -> http://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Dresden_in_World_War_II

Site da manifestação contrária ao NPD -> http://www.dresden-nazifrei.com

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Guerra é feia. É boba.

Meu intercâmbio na TUD


>>Texto provisório<<

A vantagem de se viver é que se aprende a viver, se aprende com o passado.

No Ensino Médio – talvez meus mais áureos tempos – embora eu tenha aproveitado muito bem e em boa companhia, deixou a sensação de que poderia ter sido mais intenso. Aprendi a lição, não quero mais perder oportunidades de dar sinal de vida à vida. E é por isso que em meu intercâmbio estou a estender cada segundo, apimentar cada prato, curtir cada viagem, abraçar mais.

Ao fim, saberei que não vivi tudo que um jovem poderia viver, mas terei a mais cristalina consciência que vivi muito bem tudo que vivi.

Esse é o verbo: viver. Que se aproxima do substantivo vontade, que se aproxima do verbo voar. Que se concluem em realização. Sinceramete não sei ao certo as eventuais vantagens profissionais, nem mesmo penso nisso. Penso no crescimento pessoal, em provar a cada aula um novo conhecimento, um novo ponto de vista, uma nova palavra em língua estrageira, um aprendizado de hábito cultural dum colega.

A TUD, muito mais que laboratórios, fórmulas, químicafísica, me deu um novo jeito de aprender (e por consequência de ensinar). Um jeito novo de encarar o Conhecimento (e a buscá-lo). Nesse pouco tempo, aprendi a gostar da TUD, a ter carinho. Mas é diferente do que sinto pelo CEFET/RJ.  Aliais, quanto ao CEFET, além de minha primeira casa é minha Alma Mater.

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(Escrevendo esse texto, sinto que virá um do tipo ‘Minha vida na Alemanha’, ‘Minha viagem àlguma cidade’ etc. Enfim, quem sabe não consigo consturar uma sequência de posts que um dia, talvez, quem sabe, por quê não, vire uma cronologia desse que vos escreve? Capítulos soltos de minha biografia, índice de uma bibliografia).

O enxerto acima já demonstra uma coisa que aprendi nessas bandas; ter ambições. Bem, já tinha minha cota de ambições, que considero bem modesta. Mas aqui, disposto a correr mais riscos, vi que ambições não podem (ao menos não deveriam) ser de coisas grandes. Porém de coisas diferentes! Uma nova tecnologia, um novo corte de cabelo, um novo caminho de bicicleta, uma discussão, um hábito esdrúxulo, uma forma diferente de comer batata.

Uma nova ambição para o blog. Muito embora sempre tenha gostado de escrever, nunca antes pensei que um blog pudesse ser tão pessoal e devesse ser tratado com o mesmo carinho que dou a meu pé, minha mão ou minha barriga.

E para finalizar, revelo minha localização. Estou sentado nas mesas externas do Alte Mensa (restaurante universitário), aproveitando a agradabilíssima temperatura de fim de verão, vendo as folhas das árvores ficarem menos verdes, o cata-vento girando, o chinês passando na rua, o ruído de fundo de uma obra. Eu queria fotografar a cena para ilustrar, mas como pode uma foto revelar todos os sentimentos desse momento? Só eu o sei, e vaza de mim nesse texto, nesse parágrafo.

O futuro? Deus o sabe e isso basta. Deixa estar, vamos nos limitar a viver, que já é extenuante ao bastante. Vamos queimar combustivel de avião, o mundo é grande demais.

Por essas e outra coisas, demos graças a Deus #AMDG

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Texto do quando


Quando o comandante anunciar que estamos sobrevoando águas brasileiras, sentirei algo novo. Experimentar sensações novas deixou de ser novidade, cada dia do último ano apresenta-me algo diferente.

Quando as aeromoças solicitarem que os cintos sejam presos, saberei que dentro de mais um minuto vamos pousar. Nesse momento olho pela janela, vejo as montanhas que Cabral reclamou à Sua Majestade o Rei de Portugal alguns anos atrás. Voamos em cima de Niterói, é preciso fazer a curva para acertar a pista. Tantas vezes já voei sobre essas terras, mas dessa vez é diferente.

Quando o avião virar, verei a mais bela vista. A vista que Deus e os santos têm da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Talvez por isso a cidade seja tão maravilhosa, um brinde extra para quem está no Céu.

Quando eu voltar, será dia. Quero ver do avião a Zona Sul; as praias da Urca, o Pão de açúcar, toda gente bonita de pele morena que perambula pela praia do Arpoador. Quero ver das janelas do taxi na saída do Galeão à Zona Norte; a feiura do Caju, os edifícios da Presidente Vargas, na Radial Oeste ver o Maracanã, minha faculdade, as torres das igrejas que se projetam sobre a paisagem, as estações de trem, o samba de Madureira.

Quando eu voltar, será verão nas terras do sul. Rio 40º, cidade purgatório da beleza e do caos nas ruas cheias da Saara. Suor nas caminhadas pelas ruas do meu provincial bairro português.

Quando eu voltar, verei a noite chegar. Com a brisa que vem do mar. Verei o Cruzeiro do Sul, pequeno mas imponente no firmamento. Firmamento do Rio de Janeiro, que figura perpetuamente na Bandeira Nacional. É o céu do Rio de Janeiro que representa o Brasil no universo entre as nações.

Quando eu voltar, comerei todas os pratos. Feijão, melancia, churrasco, comida da mamãe. Suco de caju e bolo de fubá.

Quando eu voltar, não importa onde esteja na cidade, verei o Corcovado, o Cristo Redentor, com seus braços abertos sobre todos cariocas, sobre a Guanabara, refulgindo de estrelas claras. Que lindo!

Quando eu voltar, eu sentirei saudades da Germânia, mas ai é outro texto.

Mas quando eu perceber que esse texto está um pouco longe de se concretizar…

A mala em meu quarto


A 'Qualität' da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

A ‘Qualität’ da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

Num cantinho do quarto está a mala que eu trouxe cheia. Eu podia tê-la guardado dentro/em cima do armário ou debaixo da cama, mas sua presença serve para me lembrar que, embora esteja e hei de ficar um bom tempo aqui, eu não sou daqui. Meu lugar não é aqui.

Essa mala veio cheia de roupas, livros, quinquilhrias que poderão ser dispensados com algum grau de facilidade. Minha mente veio cheia de coisas que não podem ser jogadas fora. Minhas memórias, anseios, desejos, ao contrário, são sempiternos.

Esse post não poderia ter sido escrito noutro idioma. “A última flor do Lácio” é a língua que sou um fluente perfeito, a única em que posso fazer e entender todas as artimanhas literárias; habilidades que muito provavelmente eu nunca terei em outro idioma.

Passei uma semana na Dinamarca sozinho, uma semana sem falar a língua de Machado. Acreditem, foi angustiante.

No post de despedida eu disse que o blog seria a mais forte ligação entre mim e o Português. Não se mostrou bem uma verdade face a quantidade impressionante de brasileiros e alemães fluentes em português que encontrei na terra de São Beno.

Esse post não poderia ter sido escrito antes. Somente agora que as novidades já se tornaram rotina eu posso ter chances de reproduzir com certa fidelidade algumas das coisas diárias da vida na Alemanha. Não que a vida seja propriamente dificil ou fácil, é diferente.

Sair da zona de conforto, na qual vivi por 21 anos, exige uma enorme confiaça. Confiaça em mim mesmo, pois passo ser o maior agente que cuida de mim. Me pergunto se não demorei demais para tal.

Com alguma tranquilidade posso afirmar que construi uma nova (e muito diferente) zona de conforto. Minha rotina é estável, mas os riscos futuros que pretendo assumir são bem altos. Eu vou pagar para ver. Estou pagando e ganhando a banca, graças a Deus.

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A língua é apenas um entre vários fatores que definem a cultura dum lugar; por certo é o mais visível, que mais une, figura entre os mais importantes, porém não é único.

A grande sacada está em aprender a cultura sutil, aquela que não está nos livros, aquela que somente vivendo pode aprender (idioma eu posso aprender no meus país), como por exemplo saber a lógica das plataformas da estação de trem.

Nisso está a graça da vida, viver, vivendo, aprender, aprendendo, amar, amando, doer, doendo.

Nisso está a graça do intercâmbio, aprender vivendo, mesmo com uma mala te esperando.

Centro do mapa


A cidade é linda. Em ambas as margens do Elba tem-se um lugar para descansar, apreciar e pensar.

A Europa não está a toa no centro do planisfério. A Alemanha também não está no centro da Europa a toa.

Seja pela cruz ou pela espada, a cultura européia se difundiu pelos quatro cantos do planeta, sem exceções. Seja pelo comércio britânico, a Engenharia alemã, as embarções portuguesas, o luxo francês, a espada espanhola ou pela religião de Roma, cada pedacinho do planeta Terra deve tributos ao Velho Mundo. O Ocidente deve-se inteiramente; o Oriente, também.

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Era um típico final de inverno. Os corvos anunciavam o final do dia. Aos dez minutos para as 18h, os sinos começam a dobrar. Alta e belamente. Suave e profudamente.

Às 18h os sinos dobram com intensidade de sentimentos dobrada. É a hora da Ave-Maria. Os sons vêm das igrejas luteranas, católicas, anglicanas, ortodoxas. Todos os povos prestam homenagem à Mãe de Deus.

Nessa hora um homem olha o relógio e continua andando. Eu tiro a boina por respeito. Os corvos se calam. As crianças gritam e correm alegres pela Hauptstraße. Algo surge de especial no ar. E era algo bom. Eu estou na Europa.

O tapete cor de rosa formado pelas flores, ainda pequenas, contrastava com as árvores desfolhadas. O frio congelante do ar contrastava com o calor que cada homem e mulher tinha.

O lindíssimo visual das praças, das flores, da estátua dourada, da perfeita harmonia do todo e do rio Elba somado ao entorpecente som dos sinos das igrejas me fazia sentir num sonho, estava num lugar etéreo. Contudo, estava na Alemanha.

Desde sempre as terras germânicas me chamavam a atenção pela sua história, por sua grandeza e riqueza. E num repente do destino com as bençãos da Providência aqui estou eu.

Os colegas do Brasil me solicitaram que escrevesse as impressões que estou tendo. Ora pois, é impossível. Como posso falar num simples post as caracteristicas de um país formado por estados quase tão antigos quanto o tempo? Certas coisas não podem ser expressas de forma lata, se grandes mentes não o souberam fazer, não será este modesto blogueiro que o saberá.

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Grata surpresa ao achar, numa das muitas praças, uma Esfera Armilar. Afinal, mesmo o centro do mapa precisa de instrumentos de navegação para ser compreendido e navegado.

Estou numa cidade de Tradição luterana, cujo último rei foi católico e sob o domínio soviético virou atéia. Muito embora a religião não seja assunto maior aqui, o maior emblema da cidade é uma igreja.

Uma capela feita para o bispado católico, vira uma igreja luterana, que é destruida na segunda guerra. Foi restaurada como símbolo de união. Que impressiona qualquer um que a visite. Especialmente se o visitante for à “sala da destruição”: é uma sala no subterrâneo da igreja que não foi restaurada, ficou intocada desde o fim da guerra. Até hoje se veem a cruz de pedra e parte do altar, quebrados. O cheiro é pesado. Cheira a destruição, a poeira, a morte. De uma aflição sem igual.

Ainda outra história triste. Estava saindo da missa e escuto um sino a badalar loucamente. Vou atras dessa igreja, guiado somente pelo som. Veja sua torre imponente, ao chegar dou de cara com um cemitério, ao observar melhor vejo que é uma igreja fantasma, totalmente destruída! Somente seu sino a cantar, como uma sina. Uma lembrança perpétua dos horrores da guera.

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De limpeza e organização impecáveis, os habitantes sentem-se verdadeiros bad boys ao atravessarem com o sinal fechado. É engraçado. E graça não é coisa comum, o maior trocadilho que vi aqui até agora foi CarGo Tram. Engraçado? Nein.

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Europeu dança muito mal.

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A estrutura da universidade é muito boa. Digna de um país que está no centro do mapa.

A organização do sistema alemão de ensino/pesquisa/indústria é muito boa. Digna de um país que além de estar no centro do mapa é a segunda maior economia do Ocidente.

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E não convem falar mais. Esse post ficou parecido com os de temas-livres “Alguns casos I e II“. Para saber mais é só pegar um vôo de 15h, conexão inclusa, para cá.

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Era um típico começo de primavera. Aproximavam-se das doze horas. Um dia frio, como quase todos aqui; um dia bonito, como quase nunca se vê aqui.

Os sinos tocavam novamente para homenagear Maria.

Os sinos sempre tocam nessa cidade, “os sinos dobram acima de qualquer momento humano passageiro“.