Dos Desenhos


Não me lembro ao certo. Foi por volta dos 11,12 anos que li meu primeiro Machado, Quincas Borba, até hoje meu livro favorito. Me identifiquei com Rubião.

Rubião não tinha maiores ambições, mesmo assim a vida voltou-se contra ele. Um cara simples, um cara bobo, mas que um dia na ida para a Capital Imperial conhece algo que muda sua vida e o leva a loucura, o amor – fogo que arde sem se ver. Tantos Palhas passaram em minha vida, tenho Sofias que tanto me magoam. E tenho medo de morrer como ele, só, louco, rastejante. Mas cultivo o sonho de caçar borboletas com minha amada; nossa única ambição é o amor!

Tantos outros livros me tocaram, mas não é sobre eles que escrevo. Tantos filmes me tocaram, mas não é sobre eles que escrevo.

Não desejo fazer um tratado sobre como os livros moldaram-me. Mas sim os desenhos. Eu sempre li bastante porque sempre gostei. Tirei muito proveito de cada situação vivida nos livros. Sim‼ Vive-se a leitura! Contudo foram os desenhos que mais profundamente moldaram o carater, sonhos e esperança desse ser que vos escreve.

Fechando ainda mais o círculo, temos Digimon e Samurai Jack. E em última instância, Samurai Jack. Não vou contar sua história, uma rápida pesquisa no IMDB solveria sua dúvida.

Antes uma observação. Minha catequese, ao contrário que muitos pensam, teve menos influência sobre mim que qualquer outra coisa, o sentimento de pertencer a Santa Igreja só me veio com a Crisma – por isso sugiro vocês se crismarem também. Eu, de família católica, seguia todas as tradições do calendário, mas essas ‘obrigações’ não eram tão fervorosas. Ou seja, minha criação foi cristã mas não tão confessional como se costuma achar. Além da educação dos meus pais, eu como todos, tive um ‘complemento’: os desenhos. Onde voltamos para o tema.

Criado em apartamento, sem irmãos, primos ou amigos. Sozinho. Brincava sozinho. Estudava sozinho. Era feliz sozinho. Desenhos japoneses e americanos priorizavam pessoas felizes aos pares, trios, quartetos, enfim, nunca sozinhas, como eu. Mas eis que surge um valente guerreiro que solitariamente luta por seus ideais e crenças, faz o bem por onde passa, sofre terríveis dilemas morais, sente frio e dor, perde batalhas e conquista a glória! Até ai muito bonito, muito comovente. Mas uma criança já iniciada na realidade bruta, cruel e fria de Machado de Assis não pode esperar que um samurai com uma espada não espete seu inimigo. Jack o faz porque Jack é real!

Em alguns desenhos o heroi quiçá usa uma armas quanto mais mata alguém. Mas Jack é real mesmo sendo fictício. Jack inspira.

Ele luta contra um Mal bem definido que se expressa em sutis contornos humanos, nos quais a espada é enfiada. Jack vence.

Ele não é um matador sem propósito, um serial-killer. Apenas busca restaurar a Paz e prosperidade para seu povo, libertar os cativos da opressão. Jack é bom.

Ele não é uma máquina fria sem compromissos maiores, ele é fiel. Jack reza.

Ele não é um fanático por armas e destruição. Apenas usa sua espada, sagrada. Com ela vence todas as outras armas. Jack é samurai. Samurai Jack.

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Por fim, tenho moldado o meu heroi. Sua moral é adicionada no lugar onde já existia a educação de meus pais, onde depois viria os ensinamentos cristãos, onde depois – muito depois – viria os ensinamentos da amizade. Esse lugar podemos chamar de Leandro.

Uma peça desforme, definida, inacabada, humana. Eu.

Uma peça rara. Sem cara-metade. Eu.

Uma peça solitária em meio a multidão. Uma peça feliz em meio a poucos. Nós.

P.S.: Sem fundamentos sociais, teológicos ou de qualquer outra ordem, eu acredito que Machado de Assis e Luís Vaz de Camões tenham um lugar muito especial no céu. Afinal eles escreveram as mais magnânimas obras literárias da humanidade. Impossível não achar que contaram com ajuda lá de cima ao escrevé-las. E foram recebidos com festa! Evoé, Baco!

Príncipe Vegeta e Samurai Jack

Príncipe Vegeta e Samurai Jack, agentes ativos na hora de preencher o perfil do Facebook.

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