Descendo as escadas


Se você quiser um jeito rápido para levar sua vida de forma miserável, triste e nostálgica, basta pensar na passagem do tempo, buscar a todo custo viver num passado tão distante que você nem se lembre mais.

Como eu sei disso? De todos os livros que li, os mais tristes livros que li, o passado  sempre se passa no presente – ou como eu disse no primeiro parágrafo na busca pelo passado.

Eu não tenho certeza-plena para gritar, então me limito a escrever minhas próprias dúvidas. Creio que um dos piores e mais devastadores sentimentos que tenho é a contemplação da nostalgia melódica de um determinado momento do passado [ou do futuro, o que em essência é ainda pior, visto que os humanos também chamam a contemplação do futuro de expectativa]. Em um livro me disseram que a gente só é feliz uma vez, que não vale a pena lembrar-se de momentos, visto que nunca se repetirão; noutro livro me cochicharam que a coisa mais terrível é alterar/esquecer o passado, por isso devemos sempre lembrar.

Posso afirmar que o parágrafo anterior é o mais esdrúxulo enxerto de texto que já teclei; afinal julgo idêntico aos textos chatos e “sem significado” que lia na escola sobre o bicho homem nas aulas de ciências sociais. Eu não sou muito entendido das ciências humanas, mas acredito que a leitura de textos antigos sejam de suma importância para… qualquer coisa. E sem ironia.

Evito levantar hipóteses sobre o tempo, mas as vezes elas me vêm, uma epifania, um insight.

Pode ser numa madrugada de solidão, numa aula, numa conversa, na observância do mar.

Pode ser quando uma criança desceu velozmente as escadas de acesso estação ferroviária. E eu me percebi segurando o corrimão firmemente, com medo de ser atingido por ela.

Pode ser quando eu me lembrei que alguns anos atrás eu próprio subia aquelas escadas tão rápido quando a gravidade me permitia, de formas diferentes, de 2 em 2 degraus, galopando, com um pé só, de 3 em 3 degraus…

E que me desculpe a estabilidade emocional, que meu cérebro tanto tenta manter, mas parei e me lembrei das escadas (e de alguma forma lembrei também da chuva que via pela janela do meu apartamento).

Amanhã eu as subirei de 2 em 2 e descerei galopando!!

**–

Catarse. s.f. purificação emocional. PSI Terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal dramática, emocional de traumatismos recalcados.

Pela santa batata, não é medo da idade, nem trauma pela lembrança de algo dramático. É apenas um rascunho de crônica 🙂

Dúvidas e contemplações da infância


Eu estava numa palestra sobre o novíssimo Laboratório de Nanotecnologia do CBPF – o diretor do Centro estava explicando a importância científica, política e social; o físico falando da expansão das fronteiras do conhecimento; o engenheiro falando sobre os aspectos de construção, operação, manutenção e aplicações de ordem prática. Na fala do engenheiro, muito mais fluente, tangível e engraçada, a minha mente saiu voando a partir do momento que ele fez uma piada com plasma e fogo. A platéia era composta principalmente por estudantes de Engenharia e Física, profissionais já formados (e doutorados) e por um solitário e curioso senhor de trajes simples e barba serrada.

A piada sobre o estado físico do fogo me lembrou que essa era uma das grandes dúvidas da minha infância. A tia do colégio ensinou que eram três os estados da matéria, sólido, líquido e gasoso. Mas e o fogo? Era o que? Grande dilema, grande dilema… Eu fiquei um longo tempo refletindo se alguma coisa ocupava meu esforço intelectual da primeira infância mais do que essa questão.

A idéia de escrever esse pequeno post veio quando precisei de uma caixinha para guardar uns componentes eletrônicos (de um circuito projetado por mim, a criança aprendeu alguma coisa de Eletrônica com o passar do tempo) e levar à faculdade. Ao pegar duas caixinhas de fósforo, tirar os palitos de uma e por na outra me veio à memória que isso era uma das minhas brincadeiras favoritas (e para profundo pesar da minha mãe, afinal as caixinhas ficam lotadas e os fósforos caiam); com essas caixas vazias eu construia várias coisas, aviões, navios, prédios, formas desformes … Como eu amava isso, como amava … Gostava tanto que certa vez pus todos os palitos de várias caixas numa caixa de pasta de dente somente para ter mais matéria-prima.

Achei curioso o fato de duas marcantes brincadeiras e dúvidas da infância voltarem a minha vida associadas a atividades de ensino de nível superior num momento bem singular da Escola de Engenharia. As dúvidas ficaram inacreditavelmente mais complexas, bem como os problemas. A simplicidade da infância sumiu, deu lugar a loucura do mundo dos adultos. Mas as coisas boas que conquistei até aqui só foram possíveis através desses ‘problemas’.

Não há dúvidas que a passagem da infância para a vida adulta não é fácil. Algumas civilizações impõem provas de morte aos candidatos. É um mundo de feras, um mundo sem amor e proteção da mamãe. Um mundo triste, um mundo sem contemplação. Lembro que amava contemplar as gotas de chuva caindo do céu, escorrendo pelo vidro da janela, o vento assobiando, eu sentado assistindo a natureza repetir mais uma vez aquilo que faz há séculos antes de eu nascer e fará por milênios após eu morrer.

Acredito fazer bem contemplar as nossas dúvidas, nossos medos, nosso silêncio, nosso eu. Quem sabe não ajuda a mitigar os problemas e sofrimentos cotidianos? Quem sabe não nos ajuda? Quem sabe não responde nossos questionamentos? Hoje eu sei perfeitamente o que é fogo, plasma, íons. Hoje eu sei que caixas de fósforo são para guardar fósforos. Mas ainda hoje eu me sinto fascinado pelas mesmas dúvidas de antigamente; quanto mais eu quero saber e sei, mais descubro minha ignorância – percebo que minha inteligência não mudou muito desde que era criança, apenas multiplei por um fator, mantendo a (enorme) diferença entre o que sei e o que não sei.

Curiosamente, é um mundo onde a maioria das pessoas precisa ter a simplicidade de um criança. Tantas pessoas desequilibradas psicologicamente, amedrontadas pela sociedade, consumidas pelo dinheiro… busquemos nossa infância de volta. Quem não gostaria de poder usar novamente a lancheira do “Rei Leão”?

Dos Desenhos


Não me lembro ao certo. Foi por volta dos 11,12 anos que li meu primeiro Machado, Quincas Borba, até hoje meu livro favorito. Me identifiquei com Rubião.

Rubião não tinha maiores ambições, mesmo assim a vida voltou-se contra ele. Um cara simples, um cara bobo, mas que um dia na ida para a Capital Imperial conhece algo que muda sua vida e o leva a loucura, o amor – fogo que arde sem se ver. Tantos Palhas passaram em minha vida, tenho Sofias que tanto me magoam. E tenho medo de morrer como ele, só, louco, rastejante. Mas cultivo o sonho de caçar borboletas com minha amada; nossa única ambição é o amor!

Tantos outros livros me tocaram, mas não é sobre eles que escrevo. Tantos filmes me tocaram, mas não é sobre eles que escrevo.

Não desejo fazer um tratado sobre como os livros moldaram-me. Mas sim os desenhos. Eu sempre li bastante porque sempre gostei. Tirei muito proveito de cada situação vivida nos livros. Sim‼ Vive-se a leitura! Contudo foram os desenhos que mais profundamente moldaram o carater, sonhos e esperança desse ser que vos escreve.

Fechando ainda mais o círculo, temos Digimon e Samurai Jack. E em última instância, Samurai Jack. Não vou contar sua história, uma rápida pesquisa no IMDB solveria sua dúvida.

Antes uma observação. Minha catequese, ao contrário que muitos pensam, teve menos influência sobre mim que qualquer outra coisa, o sentimento de pertencer a Santa Igreja só me veio com a Crisma – por isso sugiro vocês se crismarem também. Eu, de família católica, seguia todas as tradições do calendário, mas essas ‘obrigações’ não eram tão fervorosas. Ou seja, minha criação foi cristã mas não tão confessional como se costuma achar. Além da educação dos meus pais, eu como todos, tive um ‘complemento’: os desenhos. Onde voltamos para o tema.

Criado em apartamento, sem irmãos, primos ou amigos. Sozinho. Brincava sozinho. Estudava sozinho. Era feliz sozinho. Desenhos japoneses e americanos priorizavam pessoas felizes aos pares, trios, quartetos, enfim, nunca sozinhas, como eu. Mas eis que surge um valente guerreiro que solitariamente luta por seus ideais e crenças, faz o bem por onde passa, sofre terríveis dilemas morais, sente frio e dor, perde batalhas e conquista a glória! Até ai muito bonito, muito comovente. Mas uma criança já iniciada na realidade bruta, cruel e fria de Machado de Assis não pode esperar que um samurai com uma espada não espete seu inimigo. Jack o faz porque Jack é real!

Em alguns desenhos o heroi quiçá usa uma armas quanto mais mata alguém. Mas Jack é real mesmo sendo fictício. Jack inspira.

Ele luta contra um Mal bem definido que se expressa em sutis contornos humanos, nos quais a espada é enfiada. Jack vence.

Ele não é um matador sem propósito, um serial-killer. Apenas busca restaurar a Paz e prosperidade para seu povo, libertar os cativos da opressão. Jack é bom.

Ele não é uma máquina fria sem compromissos maiores, ele é fiel. Jack reza.

Ele não é um fanático por armas e destruição. Apenas usa sua espada, sagrada. Com ela vence todas as outras armas. Jack é samurai. Samurai Jack.

**–

Por fim, tenho moldado o meu heroi. Sua moral é adicionada no lugar onde já existia a educação de meus pais, onde depois viria os ensinamentos cristãos, onde depois – muito depois – viria os ensinamentos da amizade. Esse lugar podemos chamar de Leandro.

Uma peça desforme, definida, inacabada, humana. Eu.

Uma peça rara. Sem cara-metade. Eu.

Uma peça solitária em meio a multidão. Uma peça feliz em meio a poucos. Nós.

P.S.: Sem fundamentos sociais, teológicos ou de qualquer outra ordem, eu acredito que Machado de Assis e Luís Vaz de Camões tenham um lugar muito especial no céu. Afinal eles escreveram as mais magnânimas obras literárias da humanidade. Impossível não achar que contaram com ajuda lá de cima ao escrevé-las. E foram recebidos com festa! Evoé, Baco!

Príncipe Vegeta e Samurai Jack

Príncipe Vegeta e Samurai Jack, agentes ativos na hora de preencher o perfil do Facebook.