Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

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Centro do mapa


A cidade é linda. Em ambas as margens do Elba tem-se um lugar para descansar, apreciar e pensar.

A Europa não está a toa no centro do planisfério. A Alemanha também não está no centro da Europa a toa.

Seja pela cruz ou pela espada, a cultura européia se difundiu pelos quatro cantos do planeta, sem exceções. Seja pelo comércio britânico, a Engenharia alemã, as embarções portuguesas, o luxo francês, a espada espanhola ou pela religião de Roma, cada pedacinho do planeta Terra deve tributos ao Velho Mundo. O Ocidente deve-se inteiramente; o Oriente, também.

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Era um típico final de inverno. Os corvos anunciavam o final do dia. Aos dez minutos para as 18h, os sinos começam a dobrar. Alta e belamente. Suave e profudamente.

Às 18h os sinos dobram com intensidade de sentimentos dobrada. É a hora da Ave-Maria. Os sons vêm das igrejas luteranas, católicas, anglicanas, ortodoxas. Todos os povos prestam homenagem à Mãe de Deus.

Nessa hora um homem olha o relógio e continua andando. Eu tiro a boina por respeito. Os corvos se calam. As crianças gritam e correm alegres pela Hauptstraße. Algo surge de especial no ar. E era algo bom. Eu estou na Europa.

O tapete cor de rosa formado pelas flores, ainda pequenas, contrastava com as árvores desfolhadas. O frio congelante do ar contrastava com o calor que cada homem e mulher tinha.

O lindíssimo visual das praças, das flores, da estátua dourada, da perfeita harmonia do todo e do rio Elba somado ao entorpecente som dos sinos das igrejas me fazia sentir num sonho, estava num lugar etéreo. Contudo, estava na Alemanha.

Desde sempre as terras germânicas me chamavam a atenção pela sua história, por sua grandeza e riqueza. E num repente do destino com as bençãos da Providência aqui estou eu.

Os colegas do Brasil me solicitaram que escrevesse as impressões que estou tendo. Ora pois, é impossível. Como posso falar num simples post as caracteristicas de um país formado por estados quase tão antigos quanto o tempo? Certas coisas não podem ser expressas de forma lata, se grandes mentes não o souberam fazer, não será este modesto blogueiro que o saberá.

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Grata surpresa ao achar, numa das muitas praças, uma Esfera Armilar. Afinal, mesmo o centro do mapa precisa de instrumentos de navegação para ser compreendido e navegado.

Estou numa cidade de Tradição luterana, cujo último rei foi católico e sob o domínio soviético virou atéia. Muito embora a religião não seja assunto maior aqui, o maior emblema da cidade é uma igreja.

Uma capela feita para o bispado católico, vira uma igreja luterana, que é destruida na segunda guerra. Foi restaurada como símbolo de união. Que impressiona qualquer um que a visite. Especialmente se o visitante for à “sala da destruição”: é uma sala no subterrâneo da igreja que não foi restaurada, ficou intocada desde o fim da guerra. Até hoje se veem a cruz de pedra e parte do altar, quebrados. O cheiro é pesado. Cheira a destruição, a poeira, a morte. De uma aflição sem igual.

Ainda outra história triste. Estava saindo da missa e escuto um sino a badalar loucamente. Vou atras dessa igreja, guiado somente pelo som. Veja sua torre imponente, ao chegar dou de cara com um cemitério, ao observar melhor vejo que é uma igreja fantasma, totalmente destruída! Somente seu sino a cantar, como uma sina. Uma lembrança perpétua dos horrores da guera.

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De limpeza e organização impecáveis, os habitantes sentem-se verdadeiros bad boys ao atravessarem com o sinal fechado. É engraçado. E graça não é coisa comum, o maior trocadilho que vi aqui até agora foi CarGo Tram. Engraçado? Nein.

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Europeu dança muito mal.

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A estrutura da universidade é muito boa. Digna de um país que está no centro do mapa.

A organização do sistema alemão de ensino/pesquisa/indústria é muito boa. Digna de um país que além de estar no centro do mapa é a segunda maior economia do Ocidente.

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E não convem falar mais. Esse post ficou parecido com os de temas-livres “Alguns casos I e II“. Para saber mais é só pegar um vôo de 15h, conexão inclusa, para cá.

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Era um típico começo de primavera. Aproximavam-se das doze horas. Um dia frio, como quase todos aqui; um dia bonito, como quase nunca se vê aqui.

Os sinos tocavam novamente para homenagear Maria.

Os sinos sempre tocam nessa cidade, “os sinos dobram acima de qualquer momento humano passageiro“.

Hoje é dia da Padroeira


Seria impossível que uma pequena imagem, pequena mesmo, se tornasse símbolo da Fé de um povo tão grande, grande mesmo, se não fosse enviada por Deus.

Sem dúvidas hoje não é Páscoa (nada se compara), mas a alegria é enorme, enorme mesmo.

Essa é imagem original achada pelos humildes pescadores no rio.

Essa é imagem original achada pelos humildes pescadores no rio, exposta na Basílica Nacional em Aparecida do Norte.

Viva Maria, mãe de Deus e nossa‼ Viva Maria, mãe da Igreja‼

A Tradição cristã está tão profundamente enraizada no país do povo-de-pele-morena que os símbolos que representavam somente a Santa Igreja passam a ser símbolos nacionais. De forma proveitosa e danosa (infelizmente nem tudo tem somente lado bom) a Tradição misturou-se ao povo, sustenta-o, mostra seu passado e auxilia a determinar seu futuro. Isso sem dúvidas é bom, afinal nossa catequese iniciou-se séculos atrás com o beato José de Anchieta. O lado meio chato é a mistura não bem conduzida com outras religiões, com política ou com uma visão distorcida dos preceitos religiosos.

Um exemplo que reflete que somos indiscutivelmente um povo da Cruz é o outro Comemorado no dia 12 de outubro: o Cristo Redentor. Idealizado, financiado, construído e abençoado pelos fiéis católicos, hoje o Cristo não tem somente a simbologia cristã da redenção; seus braços abertos conduzem um abraço àqueles que chegam na cidade de São Sebastião. O Cristo Redentor expõe de forma muito sutil os mistérios cristãos e cariocas, expõe que o fim da crucificação é a ressurreição.

“de braços abertos sobre a Guanabara”

Mãe e Filho, com o Pai e o Espírito, fazem descer do Céu ao povo da terra brasilis as bençãos necessárias para que, apesar dos desagravos cotidianos, continuemos a ser um povo feliz, com “paz constante e prosperidade completa”, num lugar “abençoado por Deus e bonito por natureza”.

Salve Regina.

Yemanjá


Como vocês devem saber, eu sou fiel da Santa Igreja, fiel a Fé que foi creditada aos apostólos. Ao longo dos quase 2 mil anos de existência, a Igreja apoiá-se em 3 grandes, digamos, pilares; ei-los, o autêntico Magistério, as Sagradas Tradições, e a fonte das anteriores, a Sagrada Escritura.

Falo da tradição. Tradição de verdade não é uma coisa que você faz vez ou outra, não aquilo que você só ouve falar mas nunca vê, não é aquilo que é sazonal. Tradição repete-se desde tempos imemoriais! Assim é a costumeira oferenda das religiões africanas para a orixá Yemenjá.

Acho um absurdo sem tamanho esse povo ser obrigado a mudar sua data religiosa por eventos seculares recentes. Uso a palavra ‘obrigado’ pois a eles nada restou senão mudar a data, uma imposição, uma alteração a seus ritos.

Escrevo em favor dos umbandistas e afins porque creio que esse cerceamento é semelhante a obrigar os centenários sinos das igrejas calarem-se, tome o exemplo. Muito mais que liberdade religiosa isso é preservação da cultura de um povo. Do povo brasileiro cujas raízes são tão profundamente presas aos ritos católico e africano‼

Não moveria uma palha se a restrição (leia-se amputação cultural) fosse a um mega show evangélico no Aterro do Flamengo, isso nunca esteve nos nossos livros de história.

Gosto de manter as coisas ao meu redor como sempre foram (tendo atualizações, é claro), principalmente, por respeito as pessoas que vieram antes de mim. Pessoas que falavam ‘amém’ nas missas antes de mim, até mesmo pelas pessoas que jogavam suas flores brancas no mar de Copacabana no dia 31 DEZ!

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A quem interessar possa os católicos tem no último dia do ano, dedicado a São Silvestre I, missa em memória do santo, que foi papa. Podendo também ter as Vésperas solenemente celebrada, pois é a véspera da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

“Vésperas solenemente celebrada” está correto, procure por Liturgia das Horas.

Edit:

Outro texto sobre Tradição https://leandro931.wordpress.com/2010/12/06/modernidade-e-ave-maria/