Memória fotográfica


Eu acho engraçado. Há alguns pequenos detalhes que guardo em minha memória que de tão pequenos, diria a lógica, é melhor registrar de alguma maneira, texto, foto, desenho etc. São coisas simples e do cotidiano mas também podem ser complexas e atípicas, uma instrução recebida da madrinha para lavar corretamente os copos, um percurso numa cidade que visitei, pessoas que me deram um bom dia e nunca mais vi, uma fotografia, enfim qualquer momento que eu estivesse presente (a rigor, meus devaneios mnemônicos também podem ser frutos de sonho ou deja vu que jurarei serem reais da mesma maneira!).

Sempre é bom também ver/sentir algo que te faz lembrar duma coisa que você jurava que tinha perdido para sempre na memória.

Dias desses me lembrei de uma praça de Copenhagen, nada especial, seguindo a rua principal sempre em frente eu vi um “carnaval” à lá dinamarquesa. Voltei à praça e segui numa outra rua menos movimentada, uma igreja luterana e ao final vi uma boate muito famosa. Me esqueci o nome da boate. Naturalmente fui a meus arquivos, pois qualquer turista teria fotografado tudo pelo caminho. Não achei as fotos. Eu não fotografei! Mas me lembro exatamente de tudo, como se eu tivesse um Street View próprio.

Grande questão: até quando? Grandes questões auxiliares: como? por quê?

  • Como uma vez perguntei a um professor qual era a capacidade de armazenamento do cérebro humano. Não tive resposta fiável. Desde então ponho o cérebro (incluindo o funcionamento da memória) no mesmo lugar dos dogmas. Apenas creia.
  • Por quê o que será que ocorreu naqueles instantes que me causaram impressão tão forte? Será que saber que um copo bem lavado não tem gotas escorrendo ou gravar as ruas de acesso a seu albergue num subúrbio de Århus ainda podem ser-me úteis um dia, já que não tenho nenhuma foto de um copo-modelo ou das ruas?
  • Até quando sei ignorar aquilo que me aflige. Se perder arquivos no PC me agoniam, perder minhas memórias então… Tenho muito medo.

Fotografar é a melhor coisa do mundo. Re(vi)ver as fotos é uma experiência tão única, que me faz sentir as emoções e sensações daquele instante, com um adicional espetacular: o filtro que o tempo impõe, ou seja, posso estar relembrando/invocando uma sensação errônea, sendo enganado por mim mesmo. Mas acho importante olhar para o passado e julgar as suas ações de acordo com a sua mentalidade à época. Julgar o passado com a cabeça de hoje seria injusto comigo.

Algumas vezes você perde, outras você ganha.

  • primeira vez que vi um Monet (Ponte japonesa) na 6ª série e de quando o vi de verdade no British National Gallery (admito quase ter chorado ao ver esse quadro – se me perguntarem porque gosto tanto dele, não sei).
  • música da digievolução dos Digimons que sempre me remete a primeira infância, onde assistia ao VHS da TV Globinho, porque estudava de manhã.
  • ficar deitado todo o final de semana e não querer jogar Mega Drive porque estava triste demais por causa da minha primeira “paixonite”, Bruna. Eu estava no ensino fundamental.
  • frio e a estranha sensação de liberdade absoluta ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
  • frio e a estranha sensação de morte súbita ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
    • sentir a morte quando meu pé afundou mais que deveria.
  • calma tão estranha que senti ao passear nas margens do Reno.
  • ser puxado pela maré para longe da orla e chacoalhado pelas ondas de Ipanema até a sensação de morte dar sinais inquestionáveis que aquele era seu último mergulho, mas conseguir chegar a superfície.
  • quando descobri que o Aterro do Flamengo pode ser um remédio tarja preta, que me vicia de ir lá.
  • primeira pessoa com quem falei nos meus dois últimos colégios antes de entrar na faculdade (se chamavam Daniel e Miguel).
  • quando aprendi como se fala guardanapo em alemão (e depois, muito depois, descobri estar errado)
  • quando consegui beber mais de uma garrafa de cerveja e só conseguia falar inglês (essa é particularmente bizarra pois foi minha primeira embriaguez e fiquei a noite inteira apontando as constelações para uma espanhola)
  • arrepio de ver um nazista.
  • beber o melhor vinho da minha vida (Deus salve Rioja!!)
  • escutar pela primeira vez a música ‘His world’
  • ver um prédio cilíndrico em Niterói, com um camelô vendendo bolas de tênis na entrada (acho que essa é minha lembrança mais antiga)

E tantas outras coisas que não faço ideia da razão de estarem tão bem indexadas. Ok, eu gosto. Gosto muito e agradeço ao Projetista Maior pelo fantástico e misterioso design do sistema que me permite fazer listas simples (sem qualquer tipo de ordem) com coisas valiosíssimas para mim.

Mas se me oferecessem uma forma de condensar minhas memórias em pílulas e guardá-las eu recusaria. Minha confiança reside na graça da minha memória.

**–

Só não me pergunte o que almocei, minha memória não é tão boa e não acho o Instagram uma plataforma culinária.

A foto é do primeiro ICE (trem-bala alemão) que peguei, Mainz-Leipzig-Dresden.

O nome da boate é Penthouse, que acabei não indo, pois fui a uma boate dos anos 60 naquela noite…

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London Underground

Imagine


Imagine um londrino, que num dia chuvoso de outono – como sempre são os dias por lá- resolve desembarcar umas estações antes para passear pelo Hyde Park, ver as árvores, suas folhas amarelas antes que a neve roube todas as cores – e tudo num branco gelo padronize. O preto das pesadas roupas e o branco das copas: um curioso baralho de uma Rainha só.

Imagine um parisiense, que num novembro chuvoso e de céu pesado resolve mudar seu percurso. Anda pelo Campo de Marte. Para e observa a majestosa e soberana Torre Eiffel, antes de ganhar a artificial iluminação natalina (se já não é o Natal artificial o bastante).

Imagine um carioca, que por falta de opção desembarca longe de seu destino num dia chuvoso de novembro, mas de primavera; atravessa sob uma deliciosa garoa a Quinta da Boa Vista. A casaca fica só sobre os ombros, não vestida, faz calor. A história do lugar promete uma Boa Esperança a todos.

O londrino entra no Tube¹; o parisiense vira o Trocadéro²; o carioca sonha em se perder no cinza de Londres e de Paris.

Imagine quem foi mais feliz.

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¹ Tube é como chamam o metrô londrino.

² Jardins do Trocadéro é uma localização em frente a Torre Eiffel, mas do outro lado do rio Sena.

A mala em meu quarto


A 'Qualität' da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

A ‘Qualität’ da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

Num cantinho do quarto está a mala que eu trouxe cheia. Eu podia tê-la guardado dentro/em cima do armário ou debaixo da cama, mas sua presença serve para me lembrar que, embora esteja e hei de ficar um bom tempo aqui, eu não sou daqui. Meu lugar não é aqui.

Essa mala veio cheia de roupas, livros, quinquilhrias que poderão ser dispensados com algum grau de facilidade. Minha mente veio cheia de coisas que não podem ser jogadas fora. Minhas memórias, anseios, desejos, ao contrário, são sempiternos.

Esse post não poderia ter sido escrito noutro idioma. “A última flor do Lácio” é a língua que sou um fluente perfeito, a única em que posso fazer e entender todas as artimanhas literárias; habilidades que muito provavelmente eu nunca terei em outro idioma.

Passei uma semana na Dinamarca sozinho, uma semana sem falar a língua de Machado. Acreditem, foi angustiante.

No post de despedida eu disse que o blog seria a mais forte ligação entre mim e o Português. Não se mostrou bem uma verdade face a quantidade impressionante de brasileiros e alemães fluentes em português que encontrei na terra de São Beno.

Esse post não poderia ter sido escrito antes. Somente agora que as novidades já se tornaram rotina eu posso ter chances de reproduzir com certa fidelidade algumas das coisas diárias da vida na Alemanha. Não que a vida seja propriamente dificil ou fácil, é diferente.

Sair da zona de conforto, na qual vivi por 21 anos, exige uma enorme confiaça. Confiaça em mim mesmo, pois passo ser o maior agente que cuida de mim. Me pergunto se não demorei demais para tal.

Com alguma tranquilidade posso afirmar que construi uma nova (e muito diferente) zona de conforto. Minha rotina é estável, mas os riscos futuros que pretendo assumir são bem altos. Eu vou pagar para ver. Estou pagando e ganhando a banca, graças a Deus.

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A língua é apenas um entre vários fatores que definem a cultura dum lugar; por certo é o mais visível, que mais une, figura entre os mais importantes, porém não é único.

A grande sacada está em aprender a cultura sutil, aquela que não está nos livros, aquela que somente vivendo pode aprender (idioma eu posso aprender no meus país), como por exemplo saber a lógica das plataformas da estação de trem.

Nisso está a graça da vida, viver, vivendo, aprender, aprendendo, amar, amando, doer, doendo.

Nisso está a graça do intercâmbio, aprender vivendo, mesmo com uma mala te esperando.

Centro do mapa


A cidade é linda. Em ambas as margens do Elba tem-se um lugar para descansar, apreciar e pensar.

A Europa não está a toa no centro do planisfério. A Alemanha também não está no centro da Europa a toa.

Seja pela cruz ou pela espada, a cultura européia se difundiu pelos quatro cantos do planeta, sem exceções. Seja pelo comércio britânico, a Engenharia alemã, as embarções portuguesas, o luxo francês, a espada espanhola ou pela religião de Roma, cada pedacinho do planeta Terra deve tributos ao Velho Mundo. O Ocidente deve-se inteiramente; o Oriente, também.

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Era um típico final de inverno. Os corvos anunciavam o final do dia. Aos dez minutos para as 18h, os sinos começam a dobrar. Alta e belamente. Suave e profudamente.

Às 18h os sinos dobram com intensidade de sentimentos dobrada. É a hora da Ave-Maria. Os sons vêm das igrejas luteranas, católicas, anglicanas, ortodoxas. Todos os povos prestam homenagem à Mãe de Deus.

Nessa hora um homem olha o relógio e continua andando. Eu tiro a boina por respeito. Os corvos se calam. As crianças gritam e correm alegres pela Hauptstraße. Algo surge de especial no ar. E era algo bom. Eu estou na Europa.

O tapete cor de rosa formado pelas flores, ainda pequenas, contrastava com as árvores desfolhadas. O frio congelante do ar contrastava com o calor que cada homem e mulher tinha.

O lindíssimo visual das praças, das flores, da estátua dourada, da perfeita harmonia do todo e do rio Elba somado ao entorpecente som dos sinos das igrejas me fazia sentir num sonho, estava num lugar etéreo. Contudo, estava na Alemanha.

Desde sempre as terras germânicas me chamavam a atenção pela sua história, por sua grandeza e riqueza. E num repente do destino com as bençãos da Providência aqui estou eu.

Os colegas do Brasil me solicitaram que escrevesse as impressões que estou tendo. Ora pois, é impossível. Como posso falar num simples post as caracteristicas de um país formado por estados quase tão antigos quanto o tempo? Certas coisas não podem ser expressas de forma lata, se grandes mentes não o souberam fazer, não será este modesto blogueiro que o saberá.

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Grata surpresa ao achar, numa das muitas praças, uma Esfera Armilar. Afinal, mesmo o centro do mapa precisa de instrumentos de navegação para ser compreendido e navegado.

Estou numa cidade de Tradição luterana, cujo último rei foi católico e sob o domínio soviético virou atéia. Muito embora a religião não seja assunto maior aqui, o maior emblema da cidade é uma igreja.

Uma capela feita para o bispado católico, vira uma igreja luterana, que é destruida na segunda guerra. Foi restaurada como símbolo de união. Que impressiona qualquer um que a visite. Especialmente se o visitante for à “sala da destruição”: é uma sala no subterrâneo da igreja que não foi restaurada, ficou intocada desde o fim da guerra. Até hoje se veem a cruz de pedra e parte do altar, quebrados. O cheiro é pesado. Cheira a destruição, a poeira, a morte. De uma aflição sem igual.

Ainda outra história triste. Estava saindo da missa e escuto um sino a badalar loucamente. Vou atras dessa igreja, guiado somente pelo som. Veja sua torre imponente, ao chegar dou de cara com um cemitério, ao observar melhor vejo que é uma igreja fantasma, totalmente destruída! Somente seu sino a cantar, como uma sina. Uma lembrança perpétua dos horrores da guera.

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De limpeza e organização impecáveis, os habitantes sentem-se verdadeiros bad boys ao atravessarem com o sinal fechado. É engraçado. E graça não é coisa comum, o maior trocadilho que vi aqui até agora foi CarGo Tram. Engraçado? Nein.

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Europeu dança muito mal.

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A estrutura da universidade é muito boa. Digna de um país que está no centro do mapa.

A organização do sistema alemão de ensino/pesquisa/indústria é muito boa. Digna de um país que além de estar no centro do mapa é a segunda maior economia do Ocidente.

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E não convem falar mais. Esse post ficou parecido com os de temas-livres “Alguns casos I e II“. Para saber mais é só pegar um vôo de 15h, conexão inclusa, para cá.

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Era um típico começo de primavera. Aproximavam-se das doze horas. Um dia frio, como quase todos aqui; um dia bonito, como quase nunca se vê aqui.

Os sinos tocavam novamente para homenagear Maria.

Os sinos sempre tocam nessa cidade, “os sinos dobram acima de qualquer momento humano passageiro“.

Juramentos, despedidas e demais coisas


Juramento

I

Eu terminei meus estudos básicos – conforme obriga a legislação brasileira – no glorioso Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (comemorado nesse blog), que é uma Instituição cuja história remonta há 100 anos no passado dessa República. A conclusão desse ciclo foi feita solenemente no auditório principal diante de uma multidão de parentes, amigos e (des)conhecidos, também estava presente o Diretor-Geral, o representante legítimo do Estado brasileiro. Naquela noite, eu e demais formandos fizemos um jurameto: aplicar todo conhecimento adquirido para o bem, devolver à Nação cada fração do investimento, respeitar e defender a Constituição brasileira e demais leis, enfim, “elevar o Brasil ao seu justo lugar entre as nações”. Naquele dia, eu empenhei minha palavra, tendo como testemunha todo esse elenco, e pela minha honra devo cumpri-la, apesar dos pesares.

II

Conforme recomenda a Tradição, ao atingir a idade mínima eu entrei para o curso de Crisma. Após o periodo de estudo e preparação, eu estava apto para afirmar perante toda Igreja, que é uma Instituição cuja história remonta há 2000 anos no passado da espécie humana e sempre presente nesse país. Esse rito de confirmação da Fé foi professado solenemente na minha paróquia de origem, completamente cheia, diante de parentes, amigos, (des)conhecidos e do bispo, representante legítimo do Magistério da Santa Igreja Católica. Naquela alegre celebração, eu e demais crismandos fizemos um juramento: nortear todo nosso entendimento para o bem, respeitar, defender e propagar o Evangelho e todo ensinamento da Igreja, enfim, realizar todas as coisas “para a maior Glória de Deus”. Naquele dia, eu empenhei minha palavra, tendo como testemunha todo esse elenco, e pela minha honra devo cumpri-la, apesar dos pesares.

Despedida

Embarco para o país que sempre amei, país cuja história sempre estudei. Vou ao país da cerveja e tenho fígado fraco; ao país tetracampeão e nada sei de futebol; ao país dos brancos e sou moreno; ao país das batatas, mas só gosto delas à francesa.

Com tantas razões para não ir, com os favores de Deus eu irei. Talvez o maior dos medos seja colocar meu sonho à prova da realidade. À prova da fria realidade alemã.

Estando eu numa terra estrangeira, acho dificil manter esse blog face a tantos desafios que se me erguerão. Blog que já sofre com a sazonalidade desse autor. Não o abandonarei (até porque será o mais forte laço com a língua de Machado que terei nos proximos meses), mas sofrerá ainda mais com a sazonalidade. Me desculpem, leitores.

Dizem que o homem busca a redenção na hora da morte. Busquei redimir-me antes de esticar as canelas. Ficar tanto tempo longe poderia ser ruim. Digo, leitores, que é ruim buscar amar todo amor em poucas semanas; abraçar todos os abraços; olhar todos os olhares; pedir perdão por todos os erros. Segurar em todas as mãos. Fiar cada amizade. Enfim, ser um homem melhor.

Cada uma das coisas que citei, sugiro a vós, leitores, que não deixem para a última hora, ora. Nunca se sabe quando você entrará num avião ou irá para Avalon.

Acho que a melhor coisa que as partes podem fazer numa despedida é manter a fidelidade. Semper fidelis. A Igreja sei que será fiel. Espero o mesmo da República e das pessoas. Eu buscarei sê-lo.

**–

Eu sou uma pessoa muito rica em viagens. Já estive em Istambul, Sarajevo, Osaka. Já estive por quase toda Europa, Estados Unidos, Colombia, Peru. E o mais interessante dessas viagens é que visitei esses lugares em diferentes épocas. Minha cidade, por exemplo, eu visitei quando o Império nasceu e se fortaleceu, quando o Império caiu, quando a República se instaurou, quando se mudou para os planaltos centrais dessa vastíssima Terra de Santa Cruz.

Eu estive junto aos portugueses que aqui desembarcaram e vi cada detalhe dos índios que aqui viviam; comemorei os 500 anos do descobrimento, o centário da independência. Chorei ao mandarem fechar as fábricas dessa colônia lusa, também chorei quandos os Jesuítas foram expulsos.

Todas essas viagens ocorreram num período muito especial de minha vida: minha juventude. Deram-se por livros, desenhos, filmes, estudos. Cada simples figura tornava-se o mais nobre brasão de armas na fertil imaginação da criança, que era muito bem alimentada por desenhos e historinhas. De todo não sou tão despreparado, mas por certo tenho menos coragem que os bravos descobridores de outrora.

Engraçado que, embora tudo esteja já previsto, a sensação é que entrarei numa caravela  buscando comprar cravo&canela nas Índias. Ideia simples e lucrativa, porém dificil de ser cumprida. De um erro, o Brasil foi descoberto e deu certo. E é exatamente assim que começo a erguer os pavilhões que me acompanharão: determinado a dar certo; e se algo der errado, dará ainda mais certo. Se for da vontade do Altíssimo.

Por essas e outras coisas, demos graças a Deus #AMDG

intercâmbio

Sob os céus da Cornualha


Na quadrilogia de Marion Zimmer sobre o Rei Artur, a Cornualha é representada como lugar onde o mar quebra, o céu é baixo, pesado, triste e frio. Exatamente igual ao céu da zona oeste, que pela primeira vez eu ousei desbravar sozinho.

Sempre tive grandes níveis de maturidade, responsabilidade e independência, porém quando estou com meus pais eu me ‘desligo’ automaticamente para economizar energia, regredir no tempo e ser inteiramente guiado por eles, como na infância. Vou contar-lhes o ocorrido nessa segunda-feira de carnaval (7/3/11) com maiores ou menores graus de detalhamento.

Fui criado num bairro da zona norte tipicamente residencial, maioria portuguesa e tudo o mais que possa derivar disso. Toda minha vida foi vivida no mesmo lugar, na mesma casa.

Quase sempre que venho à Pedra, eu venho de carro, vendo as riquezas da Barra da Tijuca; nas poucas vezes que vim de ônibus estava com meus pais, portanto no modo automático, fazendo comentários pontuais sobre as coisas, quase como um turista. Quando vim sozinho, com plena capacidade de processamento & sistemas de navegação on-line, eu vi um lugar bem diferente.

Isso começou na estação ferroviária do meu provincial bairro, sentido Santa Cruz. Não seria a primeira vez que embarcaria nesse sentido, mas sempre o fiz com objetivo de conhecer as estações (porque eu amo trens), em horário comercial non-rush e com tempo bom. Dessa vez eu desembarcaria numa estação, tinha um objetivo diferente. E resolvi prestar mais atenção na paisagem do que nas estações e na linda mulher sentada a minha frente, confesso que foi difícil tirar o olho dela, pois era de fato muito bonita.

Vencida a tentação, a paisagem fora das janelas do trem mostrou-se bucólica, montanhesca (com nuvens cobrindo o topo) e fria. Não sei se o bucolismo era fruto da pobreza que eu vi ou vice-versa: vastos campos verdes, crianças correndo na linha do trem, montanhas, casas antigas, vacas, cavalos, mais montanhas, mais crianças, casas e fábricas abandonadas, instalações do Exército, fazendas, esgoto sendo jogado em rios que não poderiam ser mais pretos, terrenos cujo quintais eram a própria linha férrea e mais crianças. Tudo isso sob um imenso céu pesado e baixo. Imaginei que o ar lá fora fosse fresco (exceto sobre o rio poluído; as janelas eram fechadas por causa do ar condicionado) e o estado de espírito tão simples quanto possível. Quase como uma viagem pelo interior, não visito pessoalmente essas terras-com-ar-bucólico pois infelizmente são terras onde o Estado não tem muito poder executivo, nem legislativo, nem judiciário, ou seja, é um lugar perigoso.

Chegando a minha estação destino, Campo Grande, vou para o ponto de ônibus esperar uma Kombi que me levará ao destino final. Aqui uma ponderação bem severa: não acho uma boa ideia usar ‘transporte complementar’ por várias razões que não convêm serem discutidas ou publicadas, mas se você vai procurar as linhas de ônibus no Guia4Rodas às 3h do dia anterior, com sono, você não terá muito sucesso e será forçado a usar a única rota que conhece… Mas nem era tão ruim, exceção da porta que precisava ser fortemente batida para fechar e uma janela quebrada.

Eu queria ter fotografado (porque eu amo fotografia), mas tanto no trem quanto no ‘transporte complementar’ eu tinha problemas práticos. Primeiro e comum aos dois modais, a câmera do celular não é muito boa para fotos em movimentos; segundo, eu não levaria uma câmera grande pois… bem, vamos a terceira e última; terceira, deveria ter trago minha compacta, não trouxe porque sou um idiota esquecido.

Descrever o trajeto de trem foi fácil, os adjetivos dizem por si e a brevidade das frases colaboram. Porem o caminho de Kombi não tem como descrever sem ocupar muitas folhas, por isso não narrarei todas as minhas impressões, reações e análises. De trem passei por N bairros, de Kombi passei só por duas grandes áreas da cidade – Campo Grande e Guaratiba –, mas tenho muito mais o que falar desse último caminho. Ah, se tenho!

Várias obras, umas grandes e outras pequenas. Destacava-se a construção de um shopping enormemente grande, um templo ao deus do consumo. O logotipo dele era o mesmo da operadora de refinados shopping centers da zona sul da cidade de São Paulo. Viadutos e túneis que servirão ao corredor de ônibus TransOeste. Muitos ônibus de ar-condicionado e executivos circulavam por lá. Várias casas, casebres e mansões. Vi também muitas palafitas usadas indevidamente; muitas igrejas pentecostais, sempre fechadas ou vazias. É no mínimo curioso ofertar produtos e serviços de luxo – ao menos supérfluos – em locais cuja grande maioria das pessoas é pobre, como se estivessem forçando algo, não sei…

Volto a por minha mão nesse texto depois de muito tempo. Acredito que as obras do shopping já tenham terminado, as obras do BRT seguem em ritmo acelerado. Nesse interim eu assisti Tropa de Elite 2, que simplesmente sistematizou algumas coisas que explicam o porquê de marcas caras, ônibus executivos, interesses de certos&certas, casas bonitas em um lugar com índices de pobreza tão altos. Mas também não pode deixar de se apontar que o consumismo, ambição sem planejamento, busca por status de uma classe média com salário de assalariado levem empresas a oferecem serviços típicos de regiões ricas. Esse ciclo, que se repete em quase toda zona oeste do Rio de Janeiro, é uma mistura perigosa de ilusão, falta de segurança, falsas promessas, esperança nebulosa. Não sei se nossas políticas de segurança pública e de assistência social darão certo. Só acho estranho pessoas usarem o cartão do bolsa família para jantarem nos restaurantes do Morumbi, Jardins, Vila Mariana… Não acho errado, apenas estranho.

Vamos voltar rapidamente aos trens, são mais simpáticos. Certa vez fiz uma excursão à imperial cidade de Petrópolis de… trem. Cortamos a cidade do Rio em direção a Magé. Passamos por paisagens silvestres, a linha de Vila Inhomirim tem muito mais verde que na linha de Santa Cruz, contudo eu poderia fazer quase os mesmos apontamentos. Piui piui.

E por fim cheguei ao destino. Ao descanso. A fuga do barulho do carnaval.

Eu realmente espero que a cidade possa passar por todas as brumas, manter a fé e chegar a Avalon. Merecemos isso.

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Tenho muita vontade de conhecer os promontórios da Cornualha, Inglaterra.

**–

Poderia tentar escrever sobre a quadrilogia. Essa obra me fez sentir como se tivesse visitado a Bretanha, conversado com seus personagens de forma muito íntima, tomado suas dores e preocupações. Senti-me tentado a trair Arthur. Senti-me tentado a trair Morgana. Senti-me como se amasse Gwenhwyfar. Sinto-me agora órfão daquele mundo. Sinto saudades também dos bons tempos que tinha enquanto eu vivia naquelas brumas e comia as maçãs de Avalon.

Vou pedir ajuda ao Merlin…

Avião


Saudação saudosos leitores,

como é bom voltar ao seio familiar, à nossa casa; mas não necessariamente à cidade, ao menos quando você retorna de uma das cidades mais maravilhosas.

Escrevo estas palavras vendo minha São Paulo do alto de um avião, com seus prédios, carros, engarrafamentos, pessoas etc. É incrivel como as nuvens parecem estáticas daqui de cima, mas não parecem de algodão! Ah se eu estivesse com meu portátil aqui… este post seria plublicado muito mais rapido. (Escrevo a mão, imagine ate digitar, editar. Olhe o tempo que isso levará, hoje são 5/05/2008 por volta de 12:10)

Neste tópico gostaria de abordar o espaço-tempo, mas não o de Eisntein, mas seu conceito filosófico de ESPAÇO E TEMPO. Dentro de uns 40 minutos estarei no Rio, se fosse de ônibus, levaria umas 6 horas! Não gosto de imaginar o que faria nessas cinco horas. Não gosto pois sei que não faria nada de produtivo e em outros tempos jogaria Age of Empires, mas não nesses. Um fator curioso é que seres humanos sempre inventam máquinas mais velozes, mais potentes e mais inteligentes – veja que em um dia economizei 5h20min, mas então porque estou sempre sem tempo? por que estamos sempre sem tempo?

Como sempre meus posts são meio vagos (por favor acredite que sou muito mais que isso, mande um e-mail, conversemos, posso provar que sou mais).

Para ser sincero, devo dizer que perdi o papel onde escrevi o original, portanto não quero mais escrever para não mudar muito o sentido original. Acabo aqui. 😥

¹ Vocês devem ter percebido nesse e em outros posts que eu sempre faço perguntas, questionamentos  mas nunca respostas. Só quero dizer que quando escrevo aqui (único lugar onde falo sem restrições, onde as pessoas não me tratam pior …), mesmo que ninguem leia, me sinto mais preparado para buscar as respostas; e quando elas vem, eu nunca as revelo. Quem sabe um dia não faço um post só sobre isso…