Aquela coisa


Sabe aquilo? Aquela coisa mesmo que sentimos? Algumas coisas só sentimos uma vez na vida, outras sentimos mais de uma vez; e querendo sempre mais nos consumimos numa busca. Pode ser num corpo da mulher amada, numa mesa de bar sozinho ou com amigos, numa igreja, no silêncio duma floresta ou até mesmo dentro de você.

Existem prazeres pequenos e intensos, já escrevi sobre eles – mas daqueles que são bem definidos, que já foram testados e classificados. E as coisas que não se apresentam?

Então, sabe aquela coisa que não se define que não se encaixa em nada e que não se diz? Chico Buarque tentou descrever (“o que será que será”), e mesmo com sua genialidade musical não conseguiu. É f*d*.

Por fim, dou-me conta que só escrevi dos prazeres efêmeros e momentâneos, como ir e voltar em menos de duas horas; mas para mim, vida é a soma discreta dos pequenos e instantâneos momentos que nos apresentam. Não sou biólogo, não sei explicar a tal coisa no corpo nem sociólogo para explicar na sociedade (e nas partes que compõem a sociedade). A bem da verdade, têm alguns textos sobre o “prazer eterno”, alguns chamam de religião.

Interessa-me saber se a vida é soma continua ou discreta. Acho que é discreta.

 

Muffin do esquecimento


Hoje, dia 14 de janeiro de 2014, foi a primeira vez que comi muffin desde que estive na Finlândia, em março de 2013. Quase um ano sem provar essas maravilhosas criações do forno. Percebi isso quando estava no mercado, procurando algo para comer na hora do almoço – lembranças muito profundas me encharcaram nesse momento.

Hoje, como em algum dia de março/13, eu estava novamente passeando por um mercado a procura de iogurte e muffin, até os cheiros me pareceram ser iguais ao do círculo polar ártico (lembrando que março é frio pacas lá e janeiro é quente pacas aqui).

Aquela viagem foi única – em uma semana vivi duas pessoas diferentes, uma mais-que-feliz outra triste. Na verdade três, antes da Feliz veio a Esperançosa.

E o que isso tudo tem haver? Sobre essa deliciosa nostalgia, de tempos (e situações que nunca mais se repetirão) salpicados por aquela viagem à fria Helsinque, me veio a tona bons enxertos para um bom post- eu estava no banheiro escovando os dentes quando essa inspiração veio.

Ao tempo de voltar ao meu PC, tudo se foi, toda história traçada nas profundezas do meu cérebro foi-se, evaneceu-se como pó estelar – ficou apenas a lembrança no meu coração.

Então esse texto é sobre isso. É sobre todos os VÁRIOS temas que são germinados, fazem-se notar, têm algum brilho soturno, fugaz. E só. Somem onde nascem: Eu.

Não passavam de textos tímidos, medrosos de encarar o mundo. Ora, façam como seu autor, míseros textos, encarem-se. Se escrevo frases boas, elas vão. Se escrevo frases ruins, elas vão. Se escrevo frases medíocres, elas também vão. Eu confiava em vocês; talvez fosse VOCÊ, ô tema perdido, que me libertasse, que fizesse meu dedo literário florescer, que me desse orgulho.

Mas por medo vocês me deixaram. E vejam só, nem pelo abandono odeio vocês, ao contrário faço uma singela homenagem, com uma ideia que me é leal da cabeça ao editor de texto.

Infelizmente eu sei que aqueles temas, que por uma fração de segundo me deram grande regozijo, nunca mais voltarão a minha mente, a minha folha, ao meu blog.

Não adianta eu ficar agora me lamuriando, (a/i)molando minha tristeza. Eu, em meu humilde e simplório intelecto, só conheço uma saída para me livrar dessa dor: continuar andando, comendo muffins em novas cidades. Fazendo novas lembranças.

Descendo as escadas


Se você quiser um jeito rápido para levar sua vida de forma miserável, triste e nostálgica, basta pensar na passagem do tempo, buscar a todo custo viver num passado tão distante que você nem se lembre mais.

Como eu sei disso? De todos os livros que li, os mais tristes livros que li, o passado  sempre se passa no presente – ou como eu disse no primeiro parágrafo na busca pelo passado.

Eu não tenho certeza-plena para gritar, então me limito a escrever minhas próprias dúvidas. Creio que um dos piores e mais devastadores sentimentos que tenho é a contemplação da nostalgia melódica de um determinado momento do passado [ou do futuro, o que em essência é ainda pior, visto que os humanos também chamam a contemplação do futuro de expectativa]. Em um livro me disseram que a gente só é feliz uma vez, que não vale a pena lembrar-se de momentos, visto que nunca se repetirão; noutro livro me cochicharam que a coisa mais terrível é alterar/esquecer o passado, por isso devemos sempre lembrar.

Posso afirmar que o parágrafo anterior é o mais esdrúxulo enxerto de texto que já teclei; afinal julgo idêntico aos textos chatos e “sem significado” que lia na escola sobre o bicho homem nas aulas de ciências sociais. Eu não sou muito entendido das ciências humanas, mas acredito que a leitura de textos antigos sejam de suma importância para… qualquer coisa. E sem ironia.

Evito levantar hipóteses sobre o tempo, mas as vezes elas me vêm, uma epifania, um insight.

Pode ser numa madrugada de solidão, numa aula, numa conversa, na observância do mar.

Pode ser quando uma criança desceu velozmente as escadas de acesso estação ferroviária. E eu me percebi segurando o corrimão firmemente, com medo de ser atingido por ela.

Pode ser quando eu me lembrei que alguns anos atrás eu próprio subia aquelas escadas tão rápido quando a gravidade me permitia, de formas diferentes, de 2 em 2 degraus, galopando, com um pé só, de 3 em 3 degraus…

E que me desculpe a estabilidade emocional, que meu cérebro tanto tenta manter, mas parei e me lembrei das escadas (e de alguma forma lembrei também da chuva que via pela janela do meu apartamento).

Amanhã eu as subirei de 2 em 2 e descerei galopando!!

**–

Catarse. s.f. purificação emocional. PSI Terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal dramática, emocional de traumatismos recalcados.

Pela santa batata, não é medo da idade, nem trauma pela lembrança de algo dramático. É apenas um rascunho de crônica 🙂

Soneto da doação


Dê-me seu sorriso mais amarelo

Dê-me sua dor mais aguda

Dê-me sua frustração mais plena

Aquilo que não mais aguenta

Dê-me sua saudade mais longe

Dê-me seu grito mais abafado

Dê-me suas pequenas angustias

Aquilo que não cabem às Augustas

Dê-me suas infelicidades

A preencher minha realidade

Dê-me a chama

De algo que clama

Dê-me todo seu perdão por este soneto em formação

Dê-me todo seu perdão por minha inexatidão

De fato não podem existir métricas ou rimas que meçam ou exprimam

a dor.

Um moribundo na boemia


Era uma vez uma região boemia de uma cidade alegre, cheia de pessoas de todas as crenças, raças e sortes. Era alta madrugada, fim de festa.

Era hora de aprumar-se à casa. Ao invés de pegar o primeiro táxi, deu preferência por caminhar pelas  as ruas antigas, com seus edifícios coloniais e suntuosos prédios governamentais, todos com lindas iluminações noturnas, coroados com a lua.

Nesse momento, imerso no silêncio filtrado da madrugada, ilhado nas suas próprias ideias, medos e amores, num compasso sem rumo na escuridão do Campo de Santana, na rigidez mecânica do relógio da Central, percebeu que o poeta tinha razão, e oras, ele sempre teve “a rua com a lua é bem mais formosa”.

Ao passar em frente ao Clube Elite, tomado por uma balada que parecia bem animada, completou sua catarse noturna. E na “cidade tão bonita, sobrou-lhe somente levar sua alma aflita e tentar acalmar as tristezas por onde passar, chorando seu ás.”

Mas pombas, “para que querer que um coração normal um dia vá te compreender” se nem mesmo tu te compreendes? Fale por você mesmo, autor sem sujeito.

Ao final, descobriu que a festa nunca termina, sempre haverá alguem para dançar e pular. Enquanto for noite há baile no Elite.

Não sabe se deseja morrer na noite de São Sebastião do Rio de Janeiro – tão gostosa-, mas alegra-se por tê-la vivido.

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A atmosfera filtrava e atenuava os sons; ao longo de seu torpe caminho escutava batidas eletrônicas, cuícas, vozes, cordas. E em sua mente cantava Noites Cariocas, Dama da Noite, As Rosas não falam, Recado ao Poeta, Maneiras e tantas outras músicas brasileiras, de compositores que fazem cintilar o céu das terras do Sul.

(The best) Glass of wine


A friend was leaving Dresden, her exchange was over. I opened a bottle of wine to salute this moment. Hence we didn’t drink the entire bottle, I put it in the fridge.

Others friends would leave Dresden, we would celebrate it too. And indeed we did, but nothing was like used to be. The city changed completely, I lost my friends, the extremely cold winter was in the corner, I was lost. I could write a complete saga about how much the city changed for the winter (and how it affected me), but not now, this is about my friends not about the sweet city of Dresden.

A few time has gone since their departure and I open my fridge.

I forgot the bottle of red wine. One night I desired to drink it. It was the best wine of my life. Not only by the drink itself (a very good Spanish), but the memories it turned into me. A flood of feelings and so. Somehow I knew I let memories in Russia, in Portugal, in many Brazilian states, in Japan, in Chile, in Germany. This feeling, of being remembered in various and different places, is nice, is a victory of life. Ok, it may sound like a self-help book, but people who have friends, in the strictest sense of the word, may know what I’m talking about.

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Many calendar’s pages have been changed since last time I touched this text, now I’m in Brazil, my homeland and I really don’t know what to add more here, maybe I don’t want to add.

This might work as an obelisk. Not supposed to do anything, just stay and stand here; one simple object to remember those times of summer, happiness and wine.

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The wine was a Murviedro Tinto Reserva. For me the Iberian wines are the best. The variants of the grapes there is better and more intense than any other. I could drink talk about the marvels from Rioja and Douro Valley (oh Tempranillo/Tinta Roriz), but not now, this is about my friends not about the sweet wine from Europe.

Vinho

Texto do quando


Quando o comandante anunciar que estamos sobrevoando águas brasileiras, sentirei algo novo. Experimentar sensações novas deixou de ser novidade, cada dia do último ano apresenta-me algo diferente.

Quando as aeromoças solicitarem que os cintos sejam presos, saberei que dentro de mais um minuto vamos pousar. Nesse momento olho pela janela, vejo as montanhas que Cabral reclamou à Sua Majestade o Rei de Portugal alguns anos atrás. Voamos em cima de Niterói, é preciso fazer a curva para acertar a pista. Tantas vezes já voei sobre essas terras, mas dessa vez é diferente.

Quando o avião virar, verei a mais bela vista. A vista que Deus e os santos têm da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Talvez por isso a cidade seja tão maravilhosa, um brinde extra para quem está no Céu.

Quando eu voltar, será dia. Quero ver do avião a Zona Sul; as praias da Urca, o Pão de açúcar, toda gente bonita de pele morena que perambula pela praia do Arpoador. Quero ver das janelas do taxi na saída do Galeão à Zona Norte; a feiura do Caju, os edifícios da Presidente Vargas, na Radial Oeste ver o Maracanã, minha faculdade, as torres das igrejas que se projetam sobre a paisagem, as estações de trem, o samba de Madureira.

Quando eu voltar, será verão nas terras do sul. Rio 40º, cidade purgatório da beleza e do caos nas ruas cheias da Saara. Suor nas caminhadas pelas ruas do meu provincial bairro português.

Quando eu voltar, verei a noite chegar. Com a brisa que vem do mar. Verei o Cruzeiro do Sul, pequeno mas imponente no firmamento. Firmamento do Rio de Janeiro, que figura perpetuamente na Bandeira Nacional. É o céu do Rio de Janeiro que representa o Brasil no universo entre as nações.

Quando eu voltar, comerei todas os pratos. Feijão, melancia, churrasco, comida da mamãe. Suco de caju e bolo de fubá.

Quando eu voltar, não importa onde esteja na cidade, verei o Corcovado, o Cristo Redentor, com seus braços abertos sobre todos cariocas, sobre a Guanabara, refulgindo de estrelas claras. Que lindo!

Quando eu voltar, eu sentirei saudades da Germânia, mas ai é outro texto.

Mas quando eu perceber que esse texto está um pouco longe de se concretizar…