Dúvidas e contemplações da infância

Eu estava numa palestra sobre o novíssimo Laboratório de Nanotecnologia do CBPF – o diretor do Centro estava explicando a importância científica, política e social; o físico falando da expansão das fronteiras do conhecimento; o engenheiro falando sobre os aspectos de construção, operação, manutenção e aplicações de ordem prática. Na fala do engenheiro, muito mais fluente, tangível e engraçada, a minha mente saiu voando a partir do momento que ele fez uma piada com plasma e fogo. A platéia era composta principalmente por estudantes de Engenharia e Física, profissionais já formados (e doutorados) e por um solitário e curioso senhor de trajes simples e barba serrada.

A piada sobre o estado físico do fogo me lembrou que essa era uma das grandes dúvidas da minha infância. A tia do colégio ensinou que eram três os estados da matéria, sólido, líquido e gasoso. Mas e o fogo? Era o que? Grande dilema, grande dilema… Eu fiquei um longo tempo refletindo se alguma coisa ocupava meu esforço intelectual da primeira infância mais do que essa questão.

A idéia de escrever esse pequeno post veio quando precisei de uma caixinha para guardar uns componentes eletrônicos (de um circuito projetado por mim, a criança aprendeu alguma coisa de Eletrônica com o passar do tempo) e levar à faculdade. Ao pegar duas caixinhas de fósforo, tirar os palitos de uma e por na outra me veio à memória que isso era uma das minhas brincadeiras favoritas (e para profundo pesar da minha mãe, afinal as caixinhas ficam lotadas e os fósforos caiam); com essas caixas vazias eu construia várias coisas, aviões, navios, prédios, formas desformes … Como eu amava isso, como amava … Gostava tanto que certa vez pus todos os palitos de várias caixas numa caixa de pasta de dente somente para ter mais matéria-prima.

Achei curioso o fato de duas marcantes brincadeiras e dúvidas da infância voltarem a minha vida associadas a atividades de ensino de nível superior num momento bem singular da Escola de Engenharia. As dúvidas ficaram inacreditavelmente mais complexas, bem como os problemas. A simplicidade da infância sumiu, deu lugar a loucura do mundo dos adultos. Mas as coisas boas que conquistei até aqui só foram possíveis através desses ‘problemas’.

Não há dúvidas que a passagem da infância para a vida adulta não é fácil. Algumas civilizações impõem provas de morte aos candidatos. É um mundo de feras, um mundo sem amor e proteção da mamãe. Um mundo triste, um mundo sem contemplação. Lembro que amava contemplar as gotas de chuva caindo do céu, escorrendo pelo vidro da janela, o vento assobiando, eu sentado assistindo a natureza repetir mais uma vez aquilo que faz há séculos antes de eu nascer e fará por milênios após eu morrer.

Acredito fazer bem contemplar as nossas dúvidas, nossos medos, nosso silêncio, nosso eu. Quem sabe não ajuda a mitigar os problemas e sofrimentos cotidianos? Quem sabe não nos ajuda? Quem sabe não responde nossos questionamentos? Hoje eu sei perfeitamente o que é fogo, plasma, íons. Hoje eu sei que caixas de fósforo são para guardar fósforos. Mas ainda hoje eu me sinto fascinado pelas mesmas dúvidas de antigamente; quanto mais eu quero saber e sei, mais descubro minha ignorância – percebo que minha inteligência não mudou muito desde que era criança, apenas multiplei por um fator, mantendo a (enorme) diferença entre o que sei e o que não sei.

Curiosamente, é um mundo onde a maioria das pessoas precisa ter a simplicidade de um criança. Tantas pessoas desequilibradas psicologicamente, amedrontadas pela sociedade, consumidas pelo dinheiro… busquemos nossa infância de volta. Quem não gostaria de poder usar novamente a lancheira do “Rei Leão”?

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2 pensamentos sobre “Dúvidas e contemplações da infância

  1. “É um mundo de feras, um mundo sem amor e proteção da mamãe. Um mundo triste, um mundo sem contemplação.” Não concordo Leandro!! Crescer não é necessariamente um mundo triste, sem o amor e a protecção da mãe!! Tudo depende da tua filosofia de vida! Tudo aquilo que faziamos em criança podemos continuar a faze lo mas com uns olhos e uma compreensão diferente, talvez com mais sabedoria o que torna tudo mais fascinante!!

    • Não nego que crescer oferece novos horizontes, novas oportunidades. Acho inclusive que ser mais maduro é melhor que ser criança justamente por poder ter pleno poder de decisão e escolha. Mas creio só ser possível haver a ‘fascinação’ se antes houver contemplação, como na infância.

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