Verticalização


Não bastasse ter que aturar funk, agora temos funk com sotaque paulista.

Tempos difíceis que vivemos. Colocam escutas nos nossos cabos de comunicação, sofremos problemas na distribuição de energia elétrica, cada vez mais temos distúrbios relacionados a nossa postura frente ao PC… Precisamos otimizar e valorizar os minutos gastos em frente a tela & os dados que trafegam nos cabos ópticos.
Tempo para escrever um texto? Impossível. É preciso trabalhar, estudar, consumir mídia para ter material para pensar/ruminar/copiarse basear em/processar.
Eis que no carnaval (láááá de 2015, o rascunho desse texto é antigo), a música que estoura é um funk (sic) paulista (sic sic), cantado por uma mulher cujo corpo não vem das Gaiolas das Popozudas, mas é doce e pequeno e azul. Uma excelente música para desperdiçar tempo.
Eu não posso controlar o que trafega pelos cabos de rede – muito menos o que é sucesso nos trios elétricos de Salvador -, peço que ao menos seja um material bom, bonito e com curvas. Nem debato a qualidade artística da coisa, vamos focar apenas na técnica, afinal já tem muito mais besteira cultural circulando por ai do que qualquer um poderia analisar.
Temos um clipe duma cidadã que canta uma canção baseada na história da chapeuzinho vermelho (ou branca de neve, sei lá) ao ritmo de funk (e o lenhador é pintoso, e as damas são gostosas e a bruxa má é ainda mais), que é bem feito até (tem uma produtora que anda fazendo uns clipes bem profissionaizinhos por ai).
Bruxa má do clipe Parara Tibum

Bruxa má do clipe Parara Tibum. Muita má.

Mas não posso esperar que a digníssima cantora em uma produção caseira consiga fazer uma gravação básica corretamente. Grava na vertical! Ok que ela tem um corpo esquio, mas nada nesse mundo justifica gravar na vertical.
Ilustre cantora rebola, enquanto se grava na vertical.

Ilustre cantora rebola, enquanto se grava na vertical.

Coitada das fibras, lotadas de Restarts, de toda sorte de problemas, de conteúdo da pior qualidade possível, de blogs pessoais … ainda devem transportar vídeos filmados na vertical.
Grande parte dos vídeos são gravados na vertical, mas oras, nossos olhos são na horizontal. Mas OK, essa pessoas sofrem de VVS. Essas pessoas precisam de ajuda.
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Tudo isto posto, digo que meu funk preferido continua sendo Valeska Popozuda cantada por Teresa Cristina em pleno Cordão do Boitatá 2015. Sim, tem vídeo. Sim, gravado na horizontal.
P.S.: a gloriosa música Parara Tibum, representativa da mais fina cultura brasileira, foi proibida de tocar por problemas de direitos autorais, é plágio.
P.S.2: Mc Tati Zaqui pôs silicone. Continua sendo esquia.

A fibra dos adolescentes musicais


Existe alguma coisa pior que músicas idiotas com letras horriveis? Sim, clipes de músicas idiotas com letras horríveis em alta definição.

A humanidade levou centenas de milhares de anos de evolução, salpicados por guerras, pestes, brigas entre azul e vermelho e crises de petróleo para poder estabilizar o acesso e o preço duma tecnologia fundamental na Era Contemporânea: a Fibra Óptica.

Esses fios de luz cruzam todo o globo terrestre, por vias aéreas, subterrâneas e submarinas.  Esses fios são capazes de transportar quantidades inimagináveis de toda sorte de informação. Esses fios são o coração do processo de globalização inciado por nossos amigos ibéricos lá na remota Era das Navegações. Enfim, graças a esses fios podemos dizer que o globo terrestre está conectado (satélites também entram nesse bolo, mas têm um custo benefício muito maior E, em última instância, servem mais para broadcast; saliento, pois, que os dados chegam as estaçãoes satelitares via fibra óptica).

Essa fibra – que não é ótica e sim óptica – é a evolução dos ‘antigos’ fios de cobre usados para conectar os continentes. Não entrarei no mérito técnico da questão, mas acreditem, é incalculavelmente mais prático e eficiente usar fios de luz que fios de cobre. Sério!

Uma palavra em destaque nesse post até aqui é evolução. Evolução do homo sapiens, da tecnologia, da comunicação bla bla bla. Se pudessemos desenhar esse texto em forma de gráfico nívelxtempo, teríamos o esboço de uma gaussiana cujo ponto de inversão é depois da seguinte palavra: Rebecca Black. E vamos ladeira abaixo, em breve cruzaremos a abscissa.

De fato, a culpa não é somente dela. Verdade que não há como citar nomes, contudo me poupa trabalho tirar para Judas um ‘cantor’ e ‘compositor’ do que me referir a toda essa multidão de ‘cantores’ adolescentes. Creio que o comportamento desse gráfico não é linear, a descida está muito mais rápida que a subida. A corrupção moral acelera a queda.

Talvez corrupção moral nem seja a expressão mais adequada ao que quero falar, mas também serve. ‘Bom senso’ pode ser usada também. Bom senso em saber quando que um adolescente de 13 anos com outros amigos igualmente adolescentes dirige um conversível rumo a uma festa (sic)! Todos sabem que sou grato aos Estados Unidos por usar a força para garantir a hegemonia do sistema capitalista e manter o mundo nos eixos sua luta pela liberdade e democracia em todo mundo, mas o modelo ofertado nesses clipes americanos está muito abaixo da média. É pior, pois atinge um público muito mais vulnerével a esse estilo vida, sabidamente mentiroso. Chegamos ao zero.

Hoje essas crianças falam de assuntos tão ‘complexos’ com tanta propriedade que eu me sinto uma criança perto delas. Devo estar ficando velho. Essas mesmas crianças que falam de amor platônico nem sabem quem foi Descartes, ouvem Restart (game over) e desconhecem Chico Buarque (viva ele!), acham que a internet é sinônimo de redes sociais. Me pergunto se elas sabem o que é um sino. (Não quero dizer que todas as crianças são idiotas, só a maioria). Mas como diz minha mãe quando eu reclamo por uma criança chorar na rua “filho, é normal, ele é só um bebe”. Realmente espero que seja só uma fase.

Eu sinto pena é da fibra óptica. Eu irei dessa para melhor antes desse mundo colapsar, mas as fibras continuarão a transportar dados cada mais irrelevantes, músicas cada vez mais idotas, clipes em SuperFullHD de Justin Biber & Cia. Existe suicídio de luz?

Pois bem, a ordenada do nosso gráfico está marcando ‘infinito negativo’. Ultrapassamos o fundo do poço.

“Yesterday was Thursday/Today is Friday” Good Lord! The lyric is so deep, touches my soul!

Nota para a densidade da letra, que é maior que a da superfície de uma estrela de neutrons (ironia).

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Vale a lida (em inglês), é apenas um dos vários textos que lamentam nosso estágio atual. Who the fuck is Rebecca Black.