eBooks são legais, mas e o cheiro?


Suponhamos um leitor que se desloca até uma livraria¹ no Centro para comprar o segundo livro de uma série infanto-juvenil. Nesse suposto ambiente, poderia pegar a linha 1 do metrô e depois a linha Deodoro de trem. Seriam uns 5 minutos debaixo da terra e outros 30 até sua casa. Tempo o bastante para ler uns 4 ou 5 capítulos.

 

Mas não. Esse leitor hipotético preferiu gastar esse tempo sobre trilhos para uma atividade muito mais prosaica, que por mais lúdica que fosse deveria ser privada (deveria?). Aquele prazer quase orgástico de destruir a proteção plástica e meter os dedos e o nariz onde nenhum homem jamais esteve. Cheiro de livro novo. Impagável. Uma tentação tão forte que não resisti e passei a maior parte do tempo tocando e cheirando o livro. Imagina os passageiros vendo a cena, mas divago.

 

Poderia ser pior. Poderia ser uma pessoa se esfregando num livro erótico. Enfim, independente do gênero literário, livro novo é um tesão. E abrir mão desse prazer é um tabu.

 

Estigma esse que enfrentei quando queria comprar o 3º livro e era sábado a tarde, livrarias estariam fechadas e queria algo um pouquinho melhor que lojas que vendem doces, livros e meia-calças. Comprei o ebook na Google Play com uma operação de crédito tão fria que cortou-me o coração. Ao final, ler no tablet não foi uma experiência tão ruim, mesmo sem cheiro de livro novo, embora esse hipotético leitor ainda não tenha sido tocado a comprar um leitor digital dedicado (foi em novembro de 2015²).

 

Lado positivo: poupar espaço nas minhas já saturadas estantes. Nem espaço no cartão SD esses livros digitais ocupam. Ficam na nuvem, seja lá onde isso for. Está tudo tão moderno, que o próximo passo em direção ao futuro de 1984 ou Admirável Mundo Novo é proibirem livros, afinal podem ocupar espaço dedicado ao trabalho na sua mente.

 

Como, felizmente, leio mais rápido que escrevo, corta para final de 2016, quando comprei meu Kindle.

 

Um mundo novo se abriu com um leitor dedicado para eBooks (também chamado de Kindle); embora o aplicativo de leitura do tablet fosse bem decente, uma tela e-ink é muito melhor. E os serviços são bem melhores também.

 

Ok, perde-se a magia do cheiro, da sensação de páginas virgens e tudo o mais, mas a praticidade supera em tanto que creio ser um caminho sem volta. Eu ainda compro livros em papel (o último foi O Senhor das Moscas, um baita livro), mas poder ler um livro de quinhentas e tantas páginas com uma mão não vale a pena? Poder ter uma minibiblioteca sempre na mochila não é válido? Ter dicionários, controles estatísticos, anotar sem destruir os livros são bons argumentos também. Em geral³, os preços são mais baixos que a versão em papel e há promoções de toda sorte para ganhar livros – o livro que estou lendo agora, Planeta dos Macacos, me saiu de graça!

Em alguns casos o preço é bem mais atraente.

 

Tenho lido muito mais (especialmente porque me juntei ao pessoal da Goodreads, aderi ao Desafio 2017, fiz planilhas etc etc). Mas então vou deixar de comprar livros? Não mesmo! Estou louco para poder ler as quase mil folhas que Zafón nos preparou em O Labirinto dos Espíritos.

 

E meio que sinto aquela sensação quando pego um livro novo. E é viciante.

 

Vicia como chocolate, que eventualmente pode te dar um livro de graça.

 

P.S.: Em tempo. Merece menção honrosa também os livros que compro nos sebos do Centro do Rio. Amo bater perna nos sebos da Praça Tiradentes!

¹ Livraria? Era uma loja de conveniências. Os livros estavam ao lado de doces…
² Cacete. Já tem isso tudo de tempo desde que li a Percy Jackson e sua trupe?
³ Muito em geral mesmo, pois já vi  a versão Kindle de um livro custar o dobro do preço da física (sic)

Considerações sobre a visita à livraria


Acho que todos já sabem, mas não custa lembrar: só gosto de ir ao shopping – por qualquer que seja a razão de ir– às segundas e terças. Os demais dias por n razões são desaconselháveis. Mas hoje, sexta, fui ao shopping.

Fui ao Tijuca para ver Alice, mas por n razões não vi – a tristeza contida na não realização do plano, se transcrita, daria um livro maior que “Os Miseráveis”. Fui fazer algo que adoro: entrar em loop numa livraria. Numa tentativa de tornar a leitura menos chata ,escrevei sobre meu dia, essa parte do dia, em tópicos: (Se não estiver afim de ler sobre mim detalhadamente pule para o próximo parágrafo)

  • Sempre é bom ver as listas de livros mais vendidos, mais recomendados e NUNCA julgar o livro pela capa, época e, principalmente, preço. Isso é valido haja visto que livros são investimentos e você não investe seu dinheiro em qualquer lugar. Mas a despeito disso tudo, as vezes me permito olhar prateleira por prateleira, livro por livro, em busca de algo que está ‘fora do circuito’. Já achei livros excelentes (e melancólicos), como o “O Mar” e “O Violoncelista de Sarajevo”. Um verdadeiro salto no escuro literário, embora no exterior sejam autores afamados.
  • Também passei pela sessão de música, sem maiores comentários.
  • Nisso achei um livro bem interessante “A Bíblia em 99 minutos”, um pequeno livro didático que ensina as principais histórias de cada Livro bíblico.
  • A parte engraçada (graça?) fica por conta do segundo livro comprado: estava eu andando e vi o livro em destaque, me abaixei para pegar e uma mulher disse ao namorado/marido/amante: “Ele vai pegar Alice‼‼‼”. Sim, de fato era Alice no País das Maravilhas e Outro lado do espelho; sim, de fato eu estava na sessão infantil; sim, de fato leio essa literatura.
  • Saio da loja, sento no banco para arrumar as coisas. Descanso. E chego a conclusão: mulheres tijucanas são muito bonitas (sem desmerecer as demais). Concluo que são muita areia para meu fusca e folheio os livros.
  • Tomo meu café habitual e poderia dizer que o dia estaria findo se não fosse a mais nova constante em minha vida, diálogos estranhos (inclusive já publiquei um aqui com o agente da SuperVia, no dia do dilúvio).

Na saída do Tijuca Off Shopping (caminho para ir a Pça Saens Peña), estava uma jovem – até que bonitinha – maquiada como palhaça, que me aborda. Momentos de tensão. Conta como fazem uma obra de resgate social através do teatro e bla bla bla, nisso ela começa a pular, falar alto, enfim chamar a atenção:

– Nossos marca-páginas são para ajudar no custeio do teatro.

– Ok, mas não precisa pular.

– Mas ai … [menina ficando euforicamente agitada e gritando; medo e constrangimento]

– Olha, eu estudo Engenharia, sou chato, e não pulo. Eu compro.

– Puxa, você nem deixou eu me agitar [como não se agitou?]. Obrigada.

– Tchau, fica com Deus.