Em 2013, o Imperador e o barão


Chegamos ao final de mais um ano e nada vai mudar só porque mudamos algumas folhas de papel.

Em 2012 tive uma grande oportunidade de estudar e estagiar num país que é referencia em muitos pontos, no continente que costuma ser referencia de qualidade de vida. Muito mais que uma chance de estudar 1+1, eu tive uma oportunidade de ver o Brasil e os brasileiros dum outro patamar. Depois desse tempo fora, sei que voltarei para uma nação muito diferente da que vivia – não só porque eu mudei, mas a forma como eu vejo o Brasil também mudou.

Há várias notícias sobre coisas boas que acontecem mundo afora, e os brasileiros insistem em criticar duramente o Brasil, relegando-nos a um estado permanente de subdesenvolvimento, na mais perfeita e sombria sintetização do “espírito de vira-lata” de Nelson Rodrigues. Ora, é óbvio que o Brasil tem problemas muito sérios, mas justificá-los por sermos brasileiros além de não ajudar a solvê-los é uma grave a ofensa aos cidadãos de bem desse país. E eu me sinto muito ofendido.

A notícia em questão era sobre uma nova ferrovia de alta velocidade na China; um dos comentários era sobre a lerdeza na construção do trem bala Rio-Sampa, dizendo que nunca no Brasil houve uma malha ferroviária decente e nem nunca terá. Nesse ponto que surge o barão.

Barão de Mauá, um brasileiro memorável, que a despeito da inércia do Estado soube ousar e crescer. A despeito da descrença ergueu fábricas e infraestruturas inéditas. E criou ferrovias. Muitas. Um cidadão de ímpeto empresarial ímpar nas terras do Sul.

São as pessoas que elegem seus governantes, mas um estadista/político sozinho não faz milagres, apenas coordena os recursos da nação. George Washington, Churchill, Vladimir Putin não seriam notórios se governassem macacos inanimados. Certa vez disse John Kennedy, “não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país”. Latino Americanos, Brasileiros despertai em vós o ímpeto e a audácia do Barão neste novo ano.

Lembrai-vos também dos valores de Dom Pedro II ao elegerem os políticos. Quando as vontades política e privada se encontraram, lançaram o Brasil no caminho da grandeza. Sinceramente desejo a benção de podermos repetir os acertos e consertar os erros, assumindo sempre nosso passaporte, nosso brasão.

Em 2013 desejo a todos vós a capacidade de inovar, desafiar, crescer, expandir, sustentar, amar e ter Paz.

Desejo mais vontade política, mais vocação religiosa, mais aptidão a discussões saudáveis, mais empreendedorismo, mais sensibilidade, mais vida, mais Machado de Assis.

Um bom 2013.

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Na cidade do Rio de Janeiro existem duas grandes estações ferroviárias, a estação Dom Pedro II (atual Central do Brasil) e a estação Barão de Mauá (renomeada para Leopoldina e desativada). Uma pena que a política do Governo na década de 50 foi desmantelar nossa infraestrutura ferroviária.

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7 de Setembro


Do Ipiranga é preciso que o brado

Seja um grito soberbo de fé!

O Brasil já surgiu libertado,

Sobre as púrpuras régias de pé.

Eia, pois, brasileiros avante!

Verdes louros colhamos louçãos!

Seja o nosso País triunfante,

Livre terra de livres irmãos!

Assumamos que o Brasil, como hoje o conhecemos, tenha surgido quando a Família Real chegou em 1808 (14 anos antes da Independência). Nós, que até então éramos colônia, fomos elevados a Reino Unido – modernização e criação de Instituições, lançamento das bases do que seria o Império e depois a República. Do Brasil. Brasileira.

Não se é negar a presença dos índios ou diminuir a maciça presença africana, mas o Brasil tem muito mais de Portugal e da Europa. E isso gera algumas distorções em nossa sociedade. No dia 7 de setembro de 1822 aconteceu uma dessas. O resto é história.

À distorção que me referia. Num lugar onde a independência foi marcada por guerras, revoltas e criação de mártires, o Brasil – graças a Deus – foi uma ilha de tranquilidade (apesar de um ou outro farroupilha querer se vestir de rei). Também foi uma ilha de prosperidade no segundo reinado. Não a toa o Brasil se encontra na liderança da América Latina. Mas se pagou um preço por tudo isso: as margens do Ipiranga ouviram o brado retumbante dos interesses da elite, não da nação. Exemplo simples, embora “potência” não nos destacamos (como seria interesse do Estado), pois o interesse da elite gerente do Governo é divergente.

Se o penhor dessa igualdade

Conseguimos conquistar com braço forte,

Em teu seio, ô liberdade

Desafia o nosso peito a própria morte

Ô Pátria amada, idolatrada, salve salve!

És belo, és forte, impávido colosso,

E o teu futuro espelha essa grandeza.

Nós não devemos nada a Simon Bolívar porque nossa separação dos portugueses deu-se por um, pasmem, português! Mas que fique claro, cristalino, o processo foi inteiramente legítimo.

Bandeira do ImpérioBandeira da República

Muito mais que identidade com cores, precisa-se identidade de valores.

Em 1822 os índios já eram carta fora, só sobraram os negros africanos e os brasileiros morenos. Brasileiros?! Os negros estavam preocupados com sua liberdade. Liberdade legitimada por decreto imperial.

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenham havido em tão nobre País…

Abolição da escravidão foi em 1888, o texto acima foi em 1889 (Hino da República). Curiosas palavras, timing curioso…

Um tanto depois vem a República, implantada não por anseio popular, mas sim por golpe de estado da elite militar, primeira perda de legitimidade do Governo do jovem país. Passam-se os anos, vem o Estado Novo, mais democracia e outro golpe militar. A redemocratização, Diretas Já. Todos esses eventos têm algo em comum, nenhum foi popular, nenhum veio por anseio das classes baixas, nenhum foi senão a vontade do poder.

E muito sinceramente, não vejo maiores problemas. Qual país não ouve sua elite? O problema que nos atormenta é quando os interesses de Estado são contrariados e as Instituições da República são afrontadas, especialmente a Justiça. Acho meio burrice, afinal para que o Governo dê certo é preciso que o Estado também funcione.  Lembrando que lobby é pratica legal em muitos países.

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Acho plenamente errado culpar o processo de colonização pelo ‘subdesenvolvimento’, afinal, ‘tem culpa Cabral?’

Sou morador da cidade que foi capital da Colônia, do Reino Unido de Brasil e Portugal, do Império do Brasil. Foi também capital da República até 1960. Quando o Governo Federal foi aos planaltos centrais, a cidade foi esvaziada, um caos imperou sobre o estado da Guanabara. Devo só culpar Juscelino Kubitschek ou simplesmente analisar as circunstâncias e trabalhar para consertá-las? Devo lamentar inutilmente aos céus pelo ouro levado das minas gerais ou explorar e vender o nióbio? Estou bastante certo que essa Terra teve muitas outras oportunidades de ser uma potência depois que o ouro acabou; se não aproveitamos com certeza a culpa não é de Sua Majestade, o Rei de Portugal, Dom Manuel I, o venturoso¹.

15 de Novembro

Embora eu tenha Sua Majestade Dom Pedro II como o melhor governante que terras brasilis já teve, eu não sou monarquista. Mas afirmo que a data da Independência é maior e mais importante que a da Proclamação da República (ou qualquer outra festa nacional que marque a política). Minha justifica é simples. É preciso ser livre para se escolher a forma/sistema de Governo. É preciso ser livre para termos nossa política, mesmo que seja a atual. É preciso ser livre para dizer que “do universo entre as nações, resplandece a do Brasil”.

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Brasileiros têm uma história de glória. Tornamo-nos independentes sob as rédeas de um Imperador; nosso território mantem-se unido ao longo dos anos sem guerras apesar de toda diversidade cultural e social; mesmo com todo coronelismo nossa democracia é extremamente sólida, exemplo mundial; nossa economia é grande, não tanto maquiada e próspera; nossa população é pacífica.

Brasileiros só precisam deixar de ser cidadãos do país do futuro. Acabar de vez com o “complexo de vira-latas”. Sejamos arrogantes ao falar de nosso país, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sejamos audaciosos em nossos projetos e construções.

E por fim, essa estrofe diz bem o Brasil. Diz bem o porquê ainda aguentamos tudo que nos ocorre, que nos roubam e a que nos submetem.

Não temais ímpias falanges,

Que apresentam face hostil;

Vossos peitos, vossos braços

São muralhas do Brasil.

Nós somos as muralhas, os pilares, as fundações, a argamassa, as fortalezas, o motor, o rumo. Nós, os brasileiros, somos o Brasil, e o que nele há de melhor e de pior.

¹ Rei de Portugal aquando a descoberta do Brasil.

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Atualização do texto de 7 de setembro de 2005.

A mala em meu quarto


A 'Qualität' da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

A ‘Qualität’ da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

Num cantinho do quarto está a mala que eu trouxe cheia. Eu podia tê-la guardado dentro/em cima do armário ou debaixo da cama, mas sua presença serve para me lembrar que, embora esteja e hei de ficar um bom tempo aqui, eu não sou daqui. Meu lugar não é aqui.

Essa mala veio cheia de roupas, livros, quinquilhrias que poderão ser dispensados com algum grau de facilidade. Minha mente veio cheia de coisas que não podem ser jogadas fora. Minhas memórias, anseios, desejos, ao contrário, são sempiternos.

Esse post não poderia ter sido escrito noutro idioma. “A última flor do Lácio” é a língua que sou um fluente perfeito, a única em que posso fazer e entender todas as artimanhas literárias; habilidades que muito provavelmente eu nunca terei em outro idioma.

Passei uma semana na Dinamarca sozinho, uma semana sem falar a língua de Machado. Acreditem, foi angustiante.

No post de despedida eu disse que o blog seria a mais forte ligação entre mim e o Português. Não se mostrou bem uma verdade face a quantidade impressionante de brasileiros e alemães fluentes em português que encontrei na terra de São Beno.

Esse post não poderia ter sido escrito antes. Somente agora que as novidades já se tornaram rotina eu posso ter chances de reproduzir com certa fidelidade algumas das coisas diárias da vida na Alemanha. Não que a vida seja propriamente dificil ou fácil, é diferente.

Sair da zona de conforto, na qual vivi por 21 anos, exige uma enorme confiaça. Confiaça em mim mesmo, pois passo ser o maior agente que cuida de mim. Me pergunto se não demorei demais para tal.

Com alguma tranquilidade posso afirmar que construi uma nova (e muito diferente) zona de conforto. Minha rotina é estável, mas os riscos futuros que pretendo assumir são bem altos. Eu vou pagar para ver. Estou pagando e ganhando a banca, graças a Deus.

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A língua é apenas um entre vários fatores que definem a cultura dum lugar; por certo é o mais visível, que mais une, figura entre os mais importantes, porém não é único.

A grande sacada está em aprender a cultura sutil, aquela que não está nos livros, aquela que somente vivendo pode aprender (idioma eu posso aprender no meus país), como por exemplo saber a lógica das plataformas da estação de trem.

Nisso está a graça da vida, viver, vivendo, aprender, aprendendo, amar, amando, doer, doendo.

Nisso está a graça do intercâmbio, aprender vivendo, mesmo com uma mala te esperando.

Juramentos, despedidas e demais coisas


Juramento

I

Eu terminei meus estudos básicos – conforme obriga a legislação brasileira – no glorioso Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (comemorado nesse blog), que é uma Instituição cuja história remonta há 100 anos no passado dessa República. A conclusão desse ciclo foi feita solenemente no auditório principal diante de uma multidão de parentes, amigos e (des)conhecidos, também estava presente o Diretor-Geral, o representante legítimo do Estado brasileiro. Naquela noite, eu e demais formandos fizemos um jurameto: aplicar todo conhecimento adquirido para o bem, devolver à Nação cada fração do investimento, respeitar e defender a Constituição brasileira e demais leis, enfim, “elevar o Brasil ao seu justo lugar entre as nações”. Naquele dia, eu empenhei minha palavra, tendo como testemunha todo esse elenco, e pela minha honra devo cumpri-la, apesar dos pesares.

II

Conforme recomenda a Tradição, ao atingir a idade mínima eu entrei para o curso de Crisma. Após o periodo de estudo e preparação, eu estava apto para afirmar perante toda Igreja, que é uma Instituição cuja história remonta há 2000 anos no passado da espécie humana e sempre presente nesse país. Esse rito de confirmação da Fé foi professado solenemente na minha paróquia de origem, completamente cheia, diante de parentes, amigos, (des)conhecidos e do bispo, representante legítimo do Magistério da Santa Igreja Católica. Naquela alegre celebração, eu e demais crismandos fizemos um juramento: nortear todo nosso entendimento para o bem, respeitar, defender e propagar o Evangelho e todo ensinamento da Igreja, enfim, realizar todas as coisas “para a maior Glória de Deus”. Naquele dia, eu empenhei minha palavra, tendo como testemunha todo esse elenco, e pela minha honra devo cumpri-la, apesar dos pesares.

Despedida

Embarco para o país que sempre amei, país cuja história sempre estudei. Vou ao país da cerveja e tenho fígado fraco; ao país tetracampeão e nada sei de futebol; ao país dos brancos e sou moreno; ao país das batatas, mas só gosto delas à francesa.

Com tantas razões para não ir, com os favores de Deus eu irei. Talvez o maior dos medos seja colocar meu sonho à prova da realidade. À prova da fria realidade alemã.

Estando eu numa terra estrangeira, acho dificil manter esse blog face a tantos desafios que se me erguerão. Blog que já sofre com a sazonalidade desse autor. Não o abandonarei (até porque será o mais forte laço com a língua de Machado que terei nos proximos meses), mas sofrerá ainda mais com a sazonalidade. Me desculpem, leitores.

Dizem que o homem busca a redenção na hora da morte. Busquei redimir-me antes de esticar as canelas. Ficar tanto tempo longe poderia ser ruim. Digo, leitores, que é ruim buscar amar todo amor em poucas semanas; abraçar todos os abraços; olhar todos os olhares; pedir perdão por todos os erros. Segurar em todas as mãos. Fiar cada amizade. Enfim, ser um homem melhor.

Cada uma das coisas que citei, sugiro a vós, leitores, que não deixem para a última hora, ora. Nunca se sabe quando você entrará num avião ou irá para Avalon.

Acho que a melhor coisa que as partes podem fazer numa despedida é manter a fidelidade. Semper fidelis. A Igreja sei que será fiel. Espero o mesmo da República e das pessoas. Eu buscarei sê-lo.

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Eu sou uma pessoa muito rica em viagens. Já estive em Istambul, Sarajevo, Osaka. Já estive por quase toda Europa, Estados Unidos, Colombia, Peru. E o mais interessante dessas viagens é que visitei esses lugares em diferentes épocas. Minha cidade, por exemplo, eu visitei quando o Império nasceu e se fortaleceu, quando o Império caiu, quando a República se instaurou, quando se mudou para os planaltos centrais dessa vastíssima Terra de Santa Cruz.

Eu estive junto aos portugueses que aqui desembarcaram e vi cada detalhe dos índios que aqui viviam; comemorei os 500 anos do descobrimento, o centário da independência. Chorei ao mandarem fechar as fábricas dessa colônia lusa, também chorei quandos os Jesuítas foram expulsos.

Todas essas viagens ocorreram num período muito especial de minha vida: minha juventude. Deram-se por livros, desenhos, filmes, estudos. Cada simples figura tornava-se o mais nobre brasão de armas na fertil imaginação da criança, que era muito bem alimentada por desenhos e historinhas. De todo não sou tão despreparado, mas por certo tenho menos coragem que os bravos descobridores de outrora.

Engraçado que, embora tudo esteja já previsto, a sensação é que entrarei numa caravela  buscando comprar cravo&canela nas Índias. Ideia simples e lucrativa, porém dificil de ser cumprida. De um erro, o Brasil foi descoberto e deu certo. E é exatamente assim que começo a erguer os pavilhões que me acompanharão: determinado a dar certo; e se algo der errado, dará ainda mais certo. Se for da vontade do Altíssimo.

Por essas e outras coisas, demos graças a Deus #AMDG

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