Memória fotográfica

Eu acho engraçado. Há alguns pequenos detalhes que guardo em minha memória que de tão pequenos, diria a lógica, é melhor registrar de alguma maneira, texto, foto, desenho etc. São coisas simples e do cotidiano mas também podem ser complexas e atípicas, uma instrução recebida da madrinha para lavar corretamente os copos, um percurso numa cidade que visitei, pessoas que me deram um bom dia e nunca mais vi, uma fotografia, enfim qualquer momento que eu estivesse presente (a rigor, meus devaneios mnemônicos também podem ser frutos de sonho ou deja vu que jurarei serem reais da mesma maneira!).

Sempre é bom também ver/sentir algo que te faz lembrar duma coisa que você jurava que tinha perdido para sempre na memória.

Dias desses me lembrei de uma praça de Copenhagen, nada especial, seguindo a rua principal sempre em frente eu vi um “carnaval” à lá dinamarquesa. Voltei à praça e segui numa outra rua menos movimentada, uma igreja luterana e ao final vi uma boate muito famosa. Me esqueci o nome da boate. Naturalmente fui a meus arquivos, pois qualquer turista teria fotografado tudo pelo caminho. Não achei as fotos. Eu não fotografei! Mas me lembro exatamente de tudo, como se eu tivesse um Street View próprio.

Grande questão: até quando? Grandes questões auxiliares: como? por quê?

  • Como uma vez perguntei a um professor qual era a capacidade de armazenamento do cérebro humano. Não tive resposta fiável. Desde então ponho o cérebro (incluindo o funcionamento da memória) no mesmo lugar dos dogmas. Apenas creia.
  • Por quê o que será que ocorreu naqueles instantes que me causaram impressão tão forte? Será que saber que um copo bem lavado não tem gotas escorrendo ou gravar as ruas de acesso a seu albergue num subúrbio de Århus ainda podem ser-me úteis um dia, já que não tenho nenhuma foto de um copo-modelo ou das ruas?
  • Até quando sei ignorar aquilo que me aflige. Se perder arquivos no PC me agoniam, perder minhas memórias então… Tenho muito medo.

Fotografar é a melhor coisa do mundo. Re(vi)ver as fotos é uma experiência tão única, que me faz sentir as emoções e sensações daquele instante, com um adicional espetacular: o filtro que o tempo impõe, ou seja, posso estar relembrando/invocando uma sensação errônea, sendo enganado por mim mesmo. Mas acho importante olhar para o passado e julgar as suas ações de acordo com a sua mentalidade à época. Julgar o passado com a cabeça de hoje seria injusto comigo.

Algumas vezes você perde, outras você ganha.

  • primeira vez que vi um Monet (Ponte japonesa) na 6ª série e de quando o vi de verdade no British National Gallery (admito quase ter chorado ao ver esse quadro – se me perguntarem porque gosto tanto dele, não sei).
  • música da digievolução dos Digimons que sempre me remete a primeira infância, onde assistia ao VHS da TV Globinho, porque estudava de manhã.
  • ficar deitado todo o final de semana e não querer jogar Mega Drive porque estava triste demais por causa da minha primeira “paixonite”, Bruna. Eu estava no ensino fundamental.
  • frio e a estranha sensação de liberdade absoluta ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
  • frio e a estranha sensação de morte súbita ao caminhar na neve densa sobre um lago congelado em Helsinki.
    • sentir a morte quando meu pé afundou mais que deveria.
  • calma tão estranha que senti ao passear nas margens do Reno.
  • ser puxado pela maré para longe da orla e chacoalhado pelas ondas de Ipanema até a sensação de morte dar sinais inquestionáveis que aquele era seu último mergulho, mas conseguir chegar a superfície.
  • quando descobri que o Aterro do Flamengo pode ser um remédio tarja preta, que me vicia de ir lá.
  • primeira pessoa com quem falei nos meus dois últimos colégios antes de entrar na faculdade (se chamavam Daniel e Miguel).
  • quando aprendi como se fala guardanapo em alemão (e depois, muito depois, descobri estar errado)
  • quando consegui beber mais de uma garrafa de cerveja e só conseguia falar inglês (essa é particularmente bizarra pois foi minha primeira embriaguez e fiquei a noite inteira apontando as constelações para uma espanhola)
  • arrepio de ver um nazista.
  • beber o melhor vinho da minha vida (Deus salve Rioja!!)
  • escutar pela primeira vez a música ‘His world’
  • ver um prédio cilíndrico em Niterói, com um camelô vendendo bolas de tênis na entrada (acho que essa é minha lembrança mais antiga)

E tantas outras coisas que não faço ideia da razão de estarem tão bem indexadas. Ok, eu gosto. Gosto muito e agradeço ao Projetista Maior pelo fantástico e misterioso design do sistema que me permite fazer listas simples (sem qualquer tipo de ordem) com coisas valiosíssimas para mim.

Mas se me oferecessem uma forma de condensar minhas memórias em pílulas e guardá-las eu recusaria. Minha confiança reside na graça da minha memória.

**–

Só não me pergunte o que almocei, minha memória não é tão boa e não acho o Instagram uma plataforma culinária.

A foto é do primeiro ICE (trem-bala alemão) que peguei, Mainz-Leipzig-Dresden.

O nome da boate é Penthouse, que acabei não indo, pois fui a uma boate dos anos 60 naquela noite…

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