Pisca-pisca 2015


Um embate que ocorre todo final de ano entre mim e minha mãe é se os pisca-pisca devem ficar acessos a noite toda ou não.

Ela quer deixar a casa enfeitada. Eu penso no gasto energético.

Como eu sempre durmo mais tarde, desligo tudo. Mas esse ano, 2015, foi diferente.

Vi muito menos casas enfeitadas para o Natal, menos pessoas animadas com as festas. Vi (e principalmente senti) muita desanimação, muita previsão ruim, muita tristeza e decepção.

2015 não foi fácil na economia, política e na minha vida pessoal de muita gente. Mas o pior é esse efeito psicológico de manada, onde uma tristeza foi tão bem propagandeada, que cobriu o Brasil com um véu de morte e paramos.

Paramos em tudo! Luto por quem? Não sabemos. Ao que me consta, o Brasil é infinitamente maior que as tragédias pessoais de cada um de nós, é maior que todos os mandos e desmandos da política, é maior que a cotação do dólar.

E ao frigir dos ovos, nossas vidas são maiores e mais dignas do que as reportagens que fingimos entender.

É preciso um pisca-pisca na janela para lembrar ao transeunte que é Natal, que é fim de ano. Lembrar que esse ano pavoroso está acabando. E que a rigor nada muda, apenas a vã esperança, simbólica, mas forte.

Então, deixa a luzinha acessa sim! E se reclamar vai ter Simone contando!

Tchau, 2015, vá-se embora, ninguém vai sentir sua falta. 2016 vai ser melhor? Graças a Deus não consigo prever o futuro, mas de coração, acho que será melhor sim.

Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

Questão de segurança

Lei de Segurança Nacional


Estava subindo no ônibus, logo atrás também subia uma senhora com uma criança. A criança tropeçou, esbarrou em mim e quase cai em cima do motorista. Antes que pudesse me levantar o Exército chegou. Estávamos perto do Maracanã e eu podia ser um terrorista querendo lançar o veículo em tão grandioso estádio.

Estava no elevador com meu chefe. Soltei um pum fedido. Antes da porta abrir o Exército chegou. Estávamos chegando perto do andar da diretoria e eu podia ser um terrorista querendo acabar com o setor produtivo do país.

Estava tirando dúvida com um professor. Antes de terminar o desenvolvimento de uma equação o Exército chegou. Estávamos estudando e eu podia ser um terrorista querendo prejudicar o avanço da Ciência no país.

O Exército chegou, mas não fez muita coisa. Não tinham balas, só pirulitos. Escutamos um barulho vindo da rua.

Argumentam com a Lei de Segurança Nacional.

Acabamos por tomar um cale-se.

Era carnaval. Todos esqueceram tudo; mais uma vez a Segurança Nacional estava assegurada.

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José estava no Planalto. Quando o diabo o agradeceu por toda desgraça plantada e o levou, José foi enterrado com honras políticas, militares, sociais.

De estudante Para D. Pedro II


de: estudante@futuro.brasil

para: pedroii@imperador.brasil

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Saudações, Vossa Majestadade e defensor perpétuo do Brasil,

quem se atreve a lhe incomodar é um súdito da Província da Corte, da Capital Imperial o Rio de Janeiro. Eu escrevo esse email para queixar-me a ti de alguns problemas que ocorrem 123 após o golpe de estado que lhe roubou a Coroa.

Primeiro começo com as queixas sobre o Rio. Desde que resolveram tirar a Capital do litoral e pô-la no planalto central, nossa cidade sofreu um esvaziamento terrível. Eu devo dizer que desde 2007 grandes eventos têm ocorrido, e em função deles estão dando mais atenção e carinho. Mas o problema é que por muito tempo deixaram a Cidade Maravilhosa a sua sorte, dai muitos problemas cresceram e outros vieram.

Exemplifico. A Quinta da Boa Vista, sua casa, virou um museu que por anos ficou sem cuidados, a faixada caiu e mudaram de cor. Sabe os cortiços formados pelos pobres que voltaram da guerra? Então, viraram coisas ainda mais desumadas, chamadas favelas; e elas infelizmente se espalharam por muitos dos lindos morros do Rio. Com isso aumentou a violência, consumo de drogas etc etc. Recentemente, só muito recentemente, o governo começou a tentar mudar o quadro.

Com muito pesar, poderia dar muitos outros exemplos de coisas ruins e tristes que aqui ocorrem. Não me prendo em falar as boas porque para isso tem a televisão e os jornais. Eles só publicam coisas boas.

O Brasil mudou muito. O país como um todo mudou muito mais que nossa cidade, e mudou para melhor, muito embora gritantes assimetrias ainda existam.

O Estado não tem mais religião ofical, a Língua Portuguesa continua sendo o idioma oficial, nossas fronteiras são mais ou menos as mesmas. A pobreza tem diminuído, nossa economia cresce e se diversifica (Visconde de Mauá ficaria feliz), o Brasil começa – finalmente – a se projetar como um potência. Nossa nação ficou muito mais complexa que era nos tempos do Império, o que exige mais dos eleitores e governantes.

Seu Exército e sua Armada, grandes vitoriosos nas guerras em defesa pela nossa nação, foram sucateados (resolveram criar outro ramo, a Força Aérea, depois eu explico como funciona). Nossa produção cultural, embora ainda muito boa, é dia após dia contaminada por “arte-instantânea-importada”. O senhor, como grande admirador das Belas Artes, ficaria muito triste como a arte é feita/embalada/vendida/marqueteada. Eu disse que as notícias boas a imprensa dá conta, nem tanto nem tanto. Há muitas coisas boas sem anúncio, como a Escola de Artes do Parque Lage (localizada no lado sul do seu amado e querido Maciço da Tijuca), movimentos populares de replantio em montanhas da Zona Norte da cidade e outras iniciativas que seus súditos têm.

Os vizinhos continaum dando problemas. Na verdade, ao invés do Paraguai, agora o problema agora é Bolívia e Venezuela, no norte. Pelo sim pelo não, precisamos de mais duques de Caxias em nossas fileiras…

Infelizmente o mundo só reconhece o Brasil como uma país tropical, com belas selvas, praias e animais. Ignoram nossa cultura. Ignoram nossa Ciência, nosso passado de um grande Império. Do Rio, sabem todas as praias, mas não sabem sequer uma grã-Academia, o Municipal, o CBPF, uma igreja. Isso me deixa triste.

De resto é isso. Gostaria e agradeceria bastante se Vossa Majestade pudesse mais uma vez ajudar esse país, essa grande nação grande. Que seus pavilhões e gestos possam ser lembrados em Brasília (a nova capital) como exemplos de um grande governante. E é isso que o País precisa: um grande estadista!

Precisamos novamente de um Pedro. Seja I para bradar a liberdade, seja II para desenvolver!!!

Atenciosamente,

Leandro Santos, um modesto súdito estudante de nível superior, provinciano da Corte, dos subúrbios da EF dom Pedro II.

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Obrigado Elio Gaspari pelo formato do texto.

Em 2013, o Imperador e o barão


Chegamos ao final de mais um ano e nada vai mudar só porque mudamos algumas folhas de papel.

Em 2012 tive uma grande oportunidade de estudar e estagiar num país que é referencia em muitos pontos, no continente que costuma ser referencia de qualidade de vida. Muito mais que uma chance de estudar 1+1, eu tive uma oportunidade de ver o Brasil e os brasileiros dum outro patamar. Depois desse tempo fora, sei que voltarei para uma nação muito diferente da que vivia – não só porque eu mudei, mas a forma como eu vejo o Brasil também mudou.

Há várias notícias sobre coisas boas que acontecem mundo afora, e os brasileiros insistem em criticar duramente o Brasil, relegando-nos a um estado permanente de subdesenvolvimento, na mais perfeita e sombria sintetização do “espírito de vira-lata” de Nelson Rodrigues. Ora, é óbvio que o Brasil tem problemas muito sérios, mas justificá-los por sermos brasileiros além de não ajudar a solvê-los é uma grave a ofensa aos cidadãos de bem desse país. E eu me sinto muito ofendido.

A notícia em questão era sobre uma nova ferrovia de alta velocidade na China; um dos comentários era sobre a lerdeza na construção do trem bala Rio-Sampa, dizendo que nunca no Brasil houve uma malha ferroviária decente e nem nunca terá. Nesse ponto que surge o barão.

Barão de Mauá, um brasileiro memorável, que a despeito da inércia do Estado soube ousar e crescer. A despeito da descrença ergueu fábricas e infraestruturas inéditas. E criou ferrovias. Muitas. Um cidadão de ímpeto empresarial ímpar nas terras do Sul.

São as pessoas que elegem seus governantes, mas um estadista/político sozinho não faz milagres, apenas coordena os recursos da nação. George Washington, Churchill, Vladimir Putin não seriam notórios se governassem macacos inanimados. Certa vez disse John Kennedy, “não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país”. Latino Americanos, Brasileiros despertai em vós o ímpeto e a audácia do Barão neste novo ano.

Lembrai-vos também dos valores de Dom Pedro II ao elegerem os políticos. Quando as vontades política e privada se encontraram, lançaram o Brasil no caminho da grandeza. Sinceramente desejo a benção de podermos repetir os acertos e consertar os erros, assumindo sempre nosso passaporte, nosso brasão.

Em 2013 desejo a todos vós a capacidade de inovar, desafiar, crescer, expandir, sustentar, amar e ter Paz.

Desejo mais vontade política, mais vocação religiosa, mais aptidão a discussões saudáveis, mais empreendedorismo, mais sensibilidade, mais vida, mais Machado de Assis.

Um bom 2013.

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Na cidade do Rio de Janeiro existem duas grandes estações ferroviárias, a estação Dom Pedro II (atual Central do Brasil) e a estação Barão de Mauá (renomeada para Leopoldina e desativada). Uma pena que a política do Governo na década de 50 foi desmantelar nossa infraestrutura ferroviária.

7 de Setembro


Do Ipiranga é preciso que o brado

Seja um grito soberbo de fé!

O Brasil já surgiu libertado,

Sobre as púrpuras régias de pé.

Eia, pois, brasileiros avante!

Verdes louros colhamos louçãos!

Seja o nosso País triunfante,

Livre terra de livres irmãos!

Assumamos que o Brasil, como hoje o conhecemos, tenha surgido quando a Família Real chegou em 1808 (14 anos antes da Independência). Nós, que até então éramos colônia, fomos elevados a Reino Unido – modernização e criação de Instituições, lançamento das bases do que seria o Império e depois a República. Do Brasil. Brasileira.

Não se é negar a presença dos índios ou diminuir a maciça presença africana, mas o Brasil tem muito mais de Portugal e da Europa. E isso gera algumas distorções em nossa sociedade. No dia 7 de setembro de 1822 aconteceu uma dessas. O resto é história.

À distorção que me referia. Num lugar onde a independência foi marcada por guerras, revoltas e criação de mártires, o Brasil – graças a Deus – foi uma ilha de tranquilidade (apesar de um ou outro farroupilha querer se vestir de rei). Também foi uma ilha de prosperidade no segundo reinado. Não a toa o Brasil se encontra na liderança da América Latina. Mas se pagou um preço por tudo isso: as margens do Ipiranga ouviram o brado retumbante dos interesses da elite, não da nação. Exemplo simples, embora “potência” não nos destacamos (como seria interesse do Estado), pois o interesse da elite gerente do Governo é divergente.

Se o penhor dessa igualdade

Conseguimos conquistar com braço forte,

Em teu seio, ô liberdade

Desafia o nosso peito a própria morte

Ô Pátria amada, idolatrada, salve salve!

És belo, és forte, impávido colosso,

E o teu futuro espelha essa grandeza.

Nós não devemos nada a Simon Bolívar porque nossa separação dos portugueses deu-se por um, pasmem, português! Mas que fique claro, cristalino, o processo foi inteiramente legítimo.

Bandeira do ImpérioBandeira da República

Muito mais que identidade com cores, precisa-se identidade de valores.

Em 1822 os índios já eram carta fora, só sobraram os negros africanos e os brasileiros morenos. Brasileiros?! Os negros estavam preocupados com sua liberdade. Liberdade legitimada por decreto imperial.

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenham havido em tão nobre País…

Abolição da escravidão foi em 1888, o texto acima foi em 1889 (Hino da República). Curiosas palavras, timing curioso…

Um tanto depois vem a República, implantada não por anseio popular, mas sim por golpe de estado da elite militar, primeira perda de legitimidade do Governo do jovem país. Passam-se os anos, vem o Estado Novo, mais democracia e outro golpe militar. A redemocratização, Diretas Já. Todos esses eventos têm algo em comum, nenhum foi popular, nenhum veio por anseio das classes baixas, nenhum foi senão a vontade do poder.

E muito sinceramente, não vejo maiores problemas. Qual país não ouve sua elite? O problema que nos atormenta é quando os interesses de Estado são contrariados e as Instituições da República são afrontadas, especialmente a Justiça. Acho meio burrice, afinal para que o Governo dê certo é preciso que o Estado também funcione.  Lembrando que lobby é pratica legal em muitos países.

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Acho plenamente errado culpar o processo de colonização pelo ‘subdesenvolvimento’, afinal, ‘tem culpa Cabral?’

Sou morador da cidade que foi capital da Colônia, do Reino Unido de Brasil e Portugal, do Império do Brasil. Foi também capital da República até 1960. Quando o Governo Federal foi aos planaltos centrais, a cidade foi esvaziada, um caos imperou sobre o estado da Guanabara. Devo só culpar Juscelino Kubitschek ou simplesmente analisar as circunstâncias e trabalhar para consertá-las? Devo lamentar inutilmente aos céus pelo ouro levado das minas gerais ou explorar e vender o nióbio? Estou bastante certo que essa Terra teve muitas outras oportunidades de ser uma potência depois que o ouro acabou; se não aproveitamos com certeza a culpa não é de Sua Majestade, o Rei de Portugal, Dom Manuel I, o venturoso¹.

15 de Novembro

Embora eu tenha Sua Majestade Dom Pedro II como o melhor governante que terras brasilis já teve, eu não sou monarquista. Mas afirmo que a data da Independência é maior e mais importante que a da Proclamação da República (ou qualquer outra festa nacional que marque a política). Minha justifica é simples. É preciso ser livre para se escolher a forma/sistema de Governo. É preciso ser livre para termos nossa política, mesmo que seja a atual. É preciso ser livre para dizer que “do universo entre as nações, resplandece a do Brasil”.

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Brasileiros têm uma história de glória. Tornamo-nos independentes sob as rédeas de um Imperador; nosso território mantem-se unido ao longo dos anos sem guerras apesar de toda diversidade cultural e social; mesmo com todo coronelismo nossa democracia é extremamente sólida, exemplo mundial; nossa economia é grande, não tanto maquiada e próspera; nossa população é pacífica.

Brasileiros só precisam deixar de ser cidadãos do país do futuro. Acabar de vez com o “complexo de vira-latas”. Sejamos arrogantes ao falar de nosso país, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sejamos audaciosos em nossos projetos e construções.

E por fim, essa estrofe diz bem o Brasil. Diz bem o porquê ainda aguentamos tudo que nos ocorre, que nos roubam e a que nos submetem.

Não temais ímpias falanges,

Que apresentam face hostil;

Vossos peitos, vossos braços

São muralhas do Brasil.

Nós somos as muralhas, os pilares, as fundações, a argamassa, as fortalezas, o motor, o rumo. Nós, os brasileiros, somos o Brasil, e o que nele há de melhor e de pior.

¹ Rei de Portugal aquando a descoberta do Brasil.

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Atualização do texto de 7 de setembro de 2005.