Uma conversa no ônibus


Um camarada pobre entra no ônibus, diz que não tem dinheiro para voltar para casa e humildemente pede carona ao cobrador.

Um camarada pobre entra no ônibus, diz que não tem dinheiro para voltar para casa e aos gritos obriga o cobrador a lhe dar carona.

Isso deu-se no mesmo ônibus, na noite de uma terça-feira no Centro do Rio. O primeiro conseguiu sua carona e foi dormindo para casa. O segundo ficou acordado em pé, no ponto esperando outro ônibus naquela noite fria de inverno. A diferença entre eles? Um soube conversar, outro não

O amanhã se construindo hoje requer pedras, cimento, pessoas, tinta e muita conversa.

O amanhã se construindo hoje requer pedras, cimento, pessoas, tinta e muita conversa.

Conversa no ônibus

Hoje em dia a prefeitura capitaneia uma verdadeira transformação urbana na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro. A Praça Mauá tem as novas vedetes cariocas, o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio. Uma nova cidade, cheia de energia, nasce ali.

Mas naquela terça-feira de 2014, os tempos eram outros.

(É algo muito curioso que uma cidade que nasceu do mar, pelo mar e ao mar tratasse a região portuária com tamanho descaso, desprezo).

Naqueles armazéns velhos e decrépitos, havia um ponto de ônibus onde embarcaram aqueles 2 homens.

A semelhança entre eles? Aparentavam estar bêbados.

Teve um 3º homem. E este sentou ao meu lado, e como eu, apenas observou.

Este 3º homem se chamava Leonardo. Se virou para falar comigo na altura do Armazém 11.

Suspirou-se, trocando o ar fresco que vinha da Guanabara com o vapor de cana que tinha nos pulmões.

Falou-me dos 32 anos de vida que tinha, do grande orgulho e amor a sua esposa, recém casados, estagiária de administração. Sem vergonha ou pudor admitiu que “fumava e bebia uns”, mas que jamais fez outrem passar vergonha ou perdeu um dia de trabalho!

E quem o poderia reprimi-lo? Honra e compromisso apareceram mais que 5 vezes em seu discurso, do Cais do Porto até a Vila da Penha.

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É tão importante e prazeroso conversar, manter um diálogo. Aprende-se uma infinitude de coisas da Vida e da vida do outro (que invariavelmente um dia poderá e será usado na sua vida) – sabedoria popular nunca é demais.

Não existe maior fonte de sabedoria que uma troca de ideias, especial e principalmente se numa das pontas da conversa estiver uma pessoa idosa.

E adiciono um ponto mais subjetivo e pessoal às conversas: poder apreciar a beleza e sonoridade da Língua Portuguesa. Como é bom escutar esse idioma tão sonoro (sobretudo quando é bem conjugado), que envolve tantos assuntos, dos mais banais e chatos aos mais simples e humanos. Troca de experiências faz bem.

Escutemos mais.

Conversemos mais.

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Eu fui para casa pensando nisso. Peguei outro ônibus. Cheguei ao meu destino. Usando Bilhete Único.

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Incrível como eu e meu jeito de escrever mudaram deste a conversa no trem. Espero que aquelas mulheres estejam bem.

Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

“Dá a licença”


“Sei que vocês trabalharam o dia todo, mas dá a licença que estou arrombada”

 

((Sempre os diálogos e situações cotidianas que me cercam))

A caricatura da pobreza

Resumindo 1 – essa história era para ser uma atualização no Facebook, depois pensei em pôr no meu Tumblr e por fim pus aqui, no meu porta-aviões intelectual, que navega solitário num mar agitado.

Resumindo 2 – era dia de semana, último ou penúltimo trem da linha Japeri, que atende municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em geral pobres. Eu estava voltando dum encontro com os colegas da Engenharia no centro da cidade, estava num vagão cheio para o horário, num banco para oito pessoas, estavam sete pessoas confortavelmente sentadas.

Na estação São Cristóvão entram 3 travestis, buscam lugar para sentar e acham um ao meu lado e a mais velha pede as pessoas para se espremerem e diz a forte frase acima. Inevitável não escutar a conversa e tentar observar essa tribo (antes que eu pudesse notar o implante de cabelos que uma tinha, uma berra a uma velhinha “nunca viu não?!”; fiquei jogando no celular de cabeça baixa e escutando).

Resumindo 2.1 – elas falaram muitíssimo, muitíssimo mesmo sobre tudo, tudo mesmo. Eram, de facto, mulheres. E percebi que elas eram a parte visível da sociedade invisível dos menos favorecidos. Aprendi bastante da vida delas. E abordarei alguns pontos que possam interessar você, antropólogo leitor (não mencionarei, entre outras coisas, os tamanhos favoritos delas)(sim, falaram/berraram isso).

Resumindo 2.2 –  precisam de uma geladeira nova, pois a última foi destruída numa enchente.

Resumindo 2.3 – “servem” as comunidades da Mangueira e Tuiuti, que são favelas pacificadas¹, mas elas relataram que traficantes armados passeiam a luz do sol lançando indiretas às decorosas moças.

Resumindo 2.4 – a hierarquia é muito bem estabelecida e sua manutenção, rígida. Quem não segue as regras enfrenta corte marcial. E aparentemente o mesmo chefe das garotas garotas de programa também é o chefe das travestis garotas de programa.

Resumindo 2.5 – o programa “mais caro” com a “melhor moça” (com os mesmos adjetivos que usaram) custava pífios R$50,00 – preço de uma garrafa de vinho. Que isso?!? Não compreendo que sua dignidade custe R$50 #changeBrazil

Resumindo 2.6 – o item acima me deixou muito chocado.

Resumindo 3 – meu conhecimento acadêmico diz que só há produtos cujo mercado consumidor sustente a cadeia de produção; do meu mundinho de laboratório, não imaginava que houvesse mercado para elas (esclarecendo que eram prostitutas se você, meu cândido leitor, não notou)(sim, usei a Lei da oferta e demanda com pessoas, que apesar de triste é assim com qualquer profissão). Eis que um vendedor de amendoim sem os dentes começa a cantar a que estava no meu lado. Adam Smith estava inspirado quando bradou a mão invisível do mercado…

Eu desembarquei bem antes delas. Fim da história. Perpetuação da miséria humana, integração com as linhas do preconceito.

Com vossa licença, gostaria de repetir o subtítulo:

A caricatura da pobreza

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¹ http://www.uppsocial.org/territorios/ visto em 13/07/2014. Alemanha tetracampeã!

 

Aquela coisa


Sabe aquilo? Aquela coisa mesmo que sentimos? Algumas coisas só sentimos uma vez na vida, outras sentimos mais de uma vez; e querendo sempre mais nos consumimos numa busca. Pode ser num corpo da mulher amada, numa mesa de bar sozinho ou com amigos, numa igreja, no silêncio duma floresta ou até mesmo dentro de você.

Existem prazeres pequenos e intensos, já escrevi sobre eles – mas daqueles que são bem definidos, que já foram testados e classificados. E as coisas que não se apresentam?

Então, sabe aquela coisa que não se define que não se encaixa em nada e que não se diz? Chico Buarque tentou descrever (“o que será que será”), e mesmo com sua genialidade musical não conseguiu. É f*d*.

Por fim, dou-me conta que só escrevi dos prazeres efêmeros e momentâneos, como ir e voltar em menos de duas horas; mas para mim, vida é a soma discreta dos pequenos e instantâneos momentos que nos apresentam. Não sou biólogo, não sei explicar a tal coisa no corpo nem sociólogo para explicar na sociedade (e nas partes que compõem a sociedade). A bem da verdade, têm alguns textos sobre o “prazer eterno”, alguns chamam de religião.

Interessa-me saber se a vida é soma continua ou discreta. Acho que é discreta.

 

Muffin do esquecimento


Hoje, dia 14 de janeiro de 2014, foi a primeira vez que comi muffin desde que estive na Finlândia, em março de 2013. Quase um ano sem provar essas maravilhosas criações do forno. Percebi isso quando estava no mercado, procurando algo para comer na hora do almoço – lembranças muito profundas me encharcaram nesse momento.

Hoje, como em algum dia de março/13, eu estava novamente passeando por um mercado a procura de iogurte e muffin, até os cheiros me pareceram ser iguais ao do círculo polar ártico (lembrando que março é frio pacas lá e janeiro é quente pacas aqui).

Aquela viagem foi única – em uma semana vivi duas pessoas diferentes, uma mais-que-feliz outra triste. Na verdade três, antes da Feliz veio a Esperançosa.

E o que isso tudo tem haver? Sobre essa deliciosa nostalgia, de tempos (e situações que nunca mais se repetirão) salpicados por aquela viagem à fria Helsinque, me veio a tona bons enxertos para um bom post- eu estava no banheiro escovando os dentes quando essa inspiração veio.

Ao tempo de voltar ao meu PC, tudo se foi, toda história traçada nas profundezas do meu cérebro foi-se, evaneceu-se como pó estelar – ficou apenas a lembrança no meu coração.

Então esse texto é sobre isso. É sobre todos os VÁRIOS temas que são germinados, fazem-se notar, têm algum brilho soturno, fugaz. E só. Somem onde nascem: Eu.

Não passavam de textos tímidos, medrosos de encarar o mundo. Ora, façam como seu autor, míseros textos, encarem-se. Se escrevo frases boas, elas vão. Se escrevo frases ruins, elas vão. Se escrevo frases medíocres, elas também vão. Eu confiava em vocês; talvez fosse VOCÊ, ô tema perdido, que me libertasse, que fizesse meu dedo literário florescer, que me desse orgulho.

Mas por medo vocês me deixaram. E vejam só, nem pelo abandono odeio vocês, ao contrário faço uma singela homenagem, com uma ideia que me é leal da cabeça ao editor de texto.

Infelizmente eu sei que aqueles temas, que por uma fração de segundo me deram grande regozijo, nunca mais voltarão a minha mente, a minha folha, ao meu blog.

Não adianta eu ficar agora me lamuriando, (a/i)molando minha tristeza. Eu, em meu humilde e simplório intelecto, só conheço uma saída para me livrar dessa dor: continuar andando, comendo muffins em novas cidades. Fazendo novas lembranças.

London Underground

Imagine


Imagine um londrino, que num dia chuvoso de outono – como sempre são os dias por lá- resolve desembarcar umas estações antes para passear pelo Hyde Park, ver as árvores, suas folhas amarelas antes que a neve roube todas as cores – e tudo num branco gelo padronize. O preto das pesadas roupas e o branco das copas: um curioso baralho de uma Rainha só.

Imagine um parisiense, que num novembro chuvoso e de céu pesado resolve mudar seu percurso. Anda pelo Campo de Marte. Para e observa a majestosa e soberana Torre Eiffel, antes de ganhar a artificial iluminação natalina (se já não é o Natal artificial o bastante).

Imagine um carioca, que por falta de opção desembarca longe de seu destino num dia chuvoso de novembro, mas de primavera; atravessa sob uma deliciosa garoa a Quinta da Boa Vista. A casaca fica só sobre os ombros, não vestida, faz calor. A história do lugar promete uma Boa Esperança a todos.

O londrino entra no Tube¹; o parisiense vira o Trocadéro²; o carioca sonha em se perder no cinza de Londres e de Paris.

Imagine quem foi mais feliz.

**–

¹ Tube é como chamam o metrô londrino.

² Jardins do Trocadéro é uma localização em frente a Torre Eiffel, mas do outro lado do rio Sena.

Questão de segurança

Lei de Segurança Nacional


Estava subindo no ônibus, logo atrás também subia uma senhora com uma criança. A criança tropeçou, esbarrou em mim e quase cai em cima do motorista. Antes que pudesse me levantar o Exército chegou. Estávamos perto do Maracanã e eu podia ser um terrorista querendo lançar o veículo em tão grandioso estádio.

Estava no elevador com meu chefe. Soltei um pum fedido. Antes da porta abrir o Exército chegou. Estávamos chegando perto do andar da diretoria e eu podia ser um terrorista querendo acabar com o setor produtivo do país.

Estava tirando dúvida com um professor. Antes de terminar o desenvolvimento de uma equação o Exército chegou. Estávamos estudando e eu podia ser um terrorista querendo prejudicar o avanço da Ciência no país.

O Exército chegou, mas não fez muita coisa. Não tinham balas, só pirulitos. Escutamos um barulho vindo da rua.

Argumentam com a Lei de Segurança Nacional.

Acabamos por tomar um cale-se.

Era carnaval. Todos esqueceram tudo; mais uma vez a Segurança Nacional estava assegurada.

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José estava no Planalto. Quando o diabo o agradeceu por toda desgraça plantada e o levou, José foi enterrado com honras políticas, militares, sociais.