Perdi alguma coisa


Eu perdi alguma coisa. Não se trata de um brinquedo, de uma vida na fase final de Sonic the Hedgehog ou uma noite de sono para assistir ao [triste] final de Dragon Ball.

Perdi justamente aquilo que me motiva a continuar na busca vã pela cabeça de um brinquedo.

Foi numa tarde, eu estava numa situação qualquer onde eu mesmo esperava agir de forma tal, mas por fim agi doutra maneira. Não que eu tivesse feito uma contravenção, muito menos um crime e/ou pecado, mas algo tinha mudado. Dessa vez eu percebi e imediatamente pus-me a pensar se outrora tinha feito. Sim. Tinha feito.

Mudanças não planejadas. Atitudes diferentes. Duas frases que são mais que o bastante para pôr qualquer leandro em pânico.

E ai? Sei que mudanças são necessárias blah blah blah, sobretudo depois dos tempos na Germânia. Mas essas mudanças sutis de atitude? Não sei se vale o esforço para ao menos tentar identificá-las ou se vou na onda do que eu mesmo me torno. Gosto muito duma frase de Raul, “o homem é o exercício que faz”, vamos me fazendo.

Sim o verbo está conjugado certo, vamos – eu nem ninguém se faz sozinho. Em maior ou menor grau somos todos influenciáveis e direcionados. Por exemplo, o Samurai Jack me influencia muito enquanto Maria de Schwarzburg-Rudolstadt¹ não me influencia quase nada.

Muito eventualmente, é a mudança à fase adulta se consolidando.

Vamos ficando mais velhos, nossa inércia aumenta. Nossos hábitos se reforçam. Perdemos a imortalidade da infância e a esperança da juventude (Time, do Pink Floyd, gera certo incômodo). Aprendemos que não podemos mudar o mundo nem nosso país. O sistema é muito grande, te moldou e te absorveu sem que você notasse.

Vamos nos definindo mais, perdendo coisas inúteis a nosso convívio. Perdemos pessoas, ganhamos pessoas. Acumulamos lembranças, fortalecemos nossos vícios. Vamos levando com a barriga até a natureza consumir tudo. E acima de tudo, ganhamos forças para continuar.

Eu desejo a mim e a vocês, leitores, muito, mas muito daquela coisa.

___

¹ Se quiser saber mais, eis ai http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Schwarzburg-Rudolstadt

 

Anúncios

Pisca-pisca 2015


Um embate que ocorre todo final de ano entre mim e minha mãe é se os pisca-pisca devem ficar acessos a noite toda ou não.

Ela quer deixar a casa enfeitada. Eu penso no gasto energético.

Como eu sempre durmo mais tarde, desligo tudo. Mas esse ano, 2015, foi diferente.

Vi muito menos casas enfeitadas para o Natal, menos pessoas animadas com as festas. Vi (e principalmente senti) muita desanimação, muita previsão ruim, muita tristeza e decepção.

2015 não foi fácil na economia, política e na minha vida pessoal de muita gente. Mas o pior é esse efeito psicológico de manada, onde uma tristeza foi tão bem propagandeada, que cobriu o Brasil com um véu de morte e paramos.

Paramos em tudo! Luto por quem? Não sabemos. Ao que me consta, o Brasil é infinitamente maior que as tragédias pessoais de cada um de nós, é maior que todos os mandos e desmandos da política, é maior que a cotação do dólar.

E ao frigir dos ovos, nossas vidas são maiores e mais dignas do que as reportagens que fingimos entender.

É preciso um pisca-pisca na janela para lembrar ao transeunte que é Natal, que é fim de ano. Lembrar que esse ano pavoroso está acabando. E que a rigor nada muda, apenas a vã esperança, simbólica, mas forte.

Então, deixa a luzinha acessa sim! E se reclamar vai ter Simone contando!

Tchau, 2015, vá-se embora, ninguém vai sentir sua falta. 2016 vai ser melhor? Graças a Deus não consigo prever o futuro, mas de coração, acho que será melhor sim.

Alguns casos IV


Gozou. Virou para o lado. Dormiu.

Ele.

**–

Morria de medo de voar. Resolveu nadar. Caiu nas fossa das Marianas.

Morreu sem medo.

**–

Gozou. Virou para o lado. Dormiu.

Ela.

**–

Estava apertado para ir ao banheiro, mas não tinha papel. Para não se sujar, calou-se.

**–

Leu:

ATENÇÃO!

Com Desnível.

Perigo não ultrapasse!

Pensou: Alguém faltou as aulas de pontuação.

**–

Ela se cansou da vida e da política. Virou um tucano vermelho com asas de pomba que segue o sol pelo Firmamento.

Foi cassada. Foi caçada.

**–

Depois de nove meses nenhum deles dormiu mais.

**–

Se quiser ver os outros textos da série (dica: não veja).

https://leandro931.wordpress.com/?s=alguns+casos&submit=Pesquisa

Uma conversa no ônibus


Um camarada pobre entra no ônibus, diz que não tem dinheiro para voltar para casa e humildemente pede carona ao cobrador.

Um camarada pobre entra no ônibus, diz que não tem dinheiro para voltar para casa e aos gritos obriga o cobrador a lhe dar carona.

Isso deu-se no mesmo ônibus, na noite de uma terça-feira no Centro do Rio. O primeiro conseguiu sua carona e foi dormindo para casa. O segundo ficou acordado em pé, no ponto esperando outro ônibus naquela noite fria de inverno. A diferença entre eles? Um soube conversar, outro não

O amanhã se construindo hoje requer pedras, cimento, pessoas, tinta e muita conversa.

O amanhã se construindo hoje requer pedras, cimento, pessoas, tinta e muita conversa.

Conversa no ônibus

Hoje em dia a prefeitura capitaneia uma verdadeira transformação urbana na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro. A Praça Mauá tem as novas vedetes cariocas, o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio. Uma nova cidade, cheia de energia, nasce ali.

Mas naquela terça-feira de 2014, os tempos eram outros.

(É algo muito curioso que uma cidade que nasceu do mar, pelo mar e ao mar tratasse a região portuária com tamanho descaso, desprezo).

Naqueles armazéns velhos e decrépitos, havia um ponto de ônibus onde embarcaram aqueles 2 homens.

A semelhança entre eles? Aparentavam estar bêbados.

Teve um 3º homem. E este sentou ao meu lado, e como eu, apenas observou.

Este 3º homem se chamava Leonardo. Se virou para falar comigo na altura do Armazém 11.

Suspirou-se, trocando o ar fresco que vinha da Guanabara com o vapor de cana que tinha nos pulmões.

Falou-me dos 32 anos de vida que tinha, do grande orgulho e amor a sua esposa, recém casados, estagiária de administração. Sem vergonha ou pudor admitiu que “fumava e bebia uns”, mas que jamais fez outrem passar vergonha ou perdeu um dia de trabalho!

E quem o poderia reprimi-lo? Honra e compromisso apareceram mais que 5 vezes em seu discurso, do Cais do Porto até a Vila da Penha.

**–

É tão importante e prazeroso conversar, manter um diálogo. Aprende-se uma infinitude de coisas da Vida e da vida do outro (que invariavelmente um dia poderá e será usado na sua vida) – sabedoria popular nunca é demais.

Não existe maior fonte de sabedoria que uma troca de ideias, especial e principalmente se numa das pontas da conversa estiver uma pessoa idosa.

E adiciono um ponto mais subjetivo e pessoal às conversas: poder apreciar a beleza e sonoridade da Língua Portuguesa. Como é bom escutar esse idioma tão sonoro (sobretudo quando é bem conjugado), que envolve tantos assuntos, dos mais banais e chatos aos mais simples e humanos. Troca de experiências faz bem.

Escutemos mais.

Conversemos mais.

**–

Eu fui para casa pensando nisso. Peguei outro ônibus. Cheguei ao meu destino. Usando Bilhete Único.

**–

Incrível como eu e meu jeito de escrever mudaram deste a conversa no trem. Espero que aquelas mulheres estejam bem.

Portela, esfera e flechas


Berlim tem seu urso. Roma tem sua sigla. O Rio de Janeiro tem sua esfera e flechas.

Berlim tem o Reichstag. Roma o Coliseu. O Rio de Janeiro tem o Redentor.

O fofo ursinho berlinense é reconhecível por qualquer um em qualquer lugar; e o símbolo está espalhado pelas ruas da cidade.

As letras SPQR estão nos bueiros, nos papéis oficiais, nos augustos estandartes das Legiões de Roma.

A esfera armilar transpassada pelas setas de São Sebastião também está em todo cantão da Cidade Maravilhosa – mas não é reconhecida pelos cariocas. Infelizmente não sabem a função de uma esfera armilar nem o uso de sua imagem pelos impérios de Brasil e Portugal; infelizmente os neopentecostais dão chilique e inviabilizam o debate nada religioso sobre nosso brasão.

O Cristo Redentor deu mais sorte que São Sebastião (rá!) e não foi obliterado, ao contrário sua imagem transcendeu a religião católica e pertence a cidade. Pertence tanto que uma das cenas mais belas já registradas nessas terras tropicais nas últimas décadas envolveu o Redentor e a Portela, que em seu carro abre-alas fez um fusão entre a águia-símbolo da escola com a estátua do Cristo. Uma coisa linda! E espero que esse símbolo tão simples e tão forte possa ser de toda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Eu não preciso pôr uma foto da águia redentora, né?

“Dá a licença”


“Sei que vocês trabalharam o dia todo, mas dá a licença que estou arrombada”

 

((Sempre os diálogos e situações cotidianas que me cercam))

A caricatura da pobreza

Resumindo 1 – essa história era para ser uma atualização no Facebook, depois pensei em pôr no meu Tumblr e por fim pus aqui, no meu porta-aviões intelectual, que navega solitário num mar agitado.

Resumindo 2 – era dia de semana, último ou penúltimo trem da linha Japeri, que atende municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em geral pobres. Eu estava voltando dum encontro com os colegas da Engenharia no centro da cidade, estava num vagão cheio para o horário, num banco para oito pessoas, estavam sete pessoas confortavelmente sentadas.

Na estação São Cristóvão entram 3 travestis, buscam lugar para sentar e acham um ao meu lado e a mais velha pede as pessoas para se espremerem e diz a forte frase acima. Inevitável não escutar a conversa e tentar observar essa tribo (antes que eu pudesse notar o implante de cabelos que uma tinha, uma berra a uma velhinha “nunca viu não?!”; fiquei jogando no celular de cabeça baixa e escutando).

Resumindo 2.1 – elas falaram muitíssimo, muitíssimo mesmo sobre tudo, tudo mesmo. Eram, de facto, mulheres. E percebi que elas eram a parte visível da sociedade invisível dos menos favorecidos. Aprendi bastante da vida delas. E abordarei alguns pontos que possam interessar você, antropólogo leitor (não mencionarei, entre outras coisas, os tamanhos favoritos delas)(sim, falaram/berraram isso).

Resumindo 2.2 –  precisam de uma geladeira nova, pois a última foi destruída numa enchente.

Resumindo 2.3 – “servem” as comunidades da Mangueira e Tuiuti, que são favelas pacificadas¹, mas elas relataram que traficantes armados passeiam a luz do sol lançando indiretas às decorosas moças.

Resumindo 2.4 – a hierarquia é muito bem estabelecida e sua manutenção, rígida. Quem não segue as regras enfrenta corte marcial. E aparentemente o mesmo chefe das garotas garotas de programa também é o chefe das travestis garotas de programa.

Resumindo 2.5 – o programa “mais caro” com a “melhor moça” (com os mesmos adjetivos que usaram) custava pífios R$50,00 – preço de uma garrafa de vinho. Que isso?!? Não compreendo que sua dignidade custe R$50 #changeBrazil

Resumindo 2.6 – o item acima me deixou muito chocado.

Resumindo 3 – meu conhecimento acadêmico diz que só há produtos cujo mercado consumidor sustente a cadeia de produção; do meu mundinho de laboratório, não imaginava que houvesse mercado para elas (esclarecendo que eram prostitutas se você, meu cândido leitor, não notou)(sim, usei a Lei da oferta e demanda com pessoas, que apesar de triste é assim com qualquer profissão). Eis que um vendedor de amendoim sem os dentes começa a cantar a que estava no meu lado. Adam Smith estava inspirado quando bradou a mão invisível do mercado…

Eu desembarquei bem antes delas. Fim da história. Perpetuação da miséria humana, integração com as linhas do preconceito.

Com vossa licença, gostaria de repetir o subtítulo:

A caricatura da pobreza

———–

¹ http://www.uppsocial.org/territorios/ visto em 13/07/2014. Alemanha tetracampeã!

 

Aquela coisa


Sabe aquilo? Aquela coisa mesmo que sentimos? Algumas coisas só sentimos uma vez na vida, outras sentimos mais de uma vez; e querendo sempre mais nos consumimos numa busca. Pode ser num corpo da mulher amada, numa mesa de bar sozinho ou com amigos, numa igreja, no silêncio duma floresta ou até mesmo dentro de você.

Existem prazeres pequenos e intensos, já escrevi sobre eles – mas daqueles que são bem definidos, que já foram testados e classificados. E as coisas que não se apresentam?

Então, sabe aquela coisa que não se define que não se encaixa em nada e que não se diz? Chico Buarque tentou descrever (“o que será que será”), e mesmo com sua genialidade musical não conseguiu. É f*d*.

Por fim, dou-me conta que só escrevi dos prazeres efêmeros e momentâneos, como ir e voltar em menos de duas horas; mas para mim, vida é a soma discreta dos pequenos e instantâneos momentos que nos apresentam. Não sou biólogo, não sei explicar a tal coisa no corpo nem sociólogo para explicar na sociedade (e nas partes que compõem a sociedade). A bem da verdade, têm alguns textos sobre o “prazer eterno”, alguns chamam de religião.

Interessa-me saber se a vida é soma continua ou discreta. Acho que é discreta.