“Dá a licença”

“Sei que vocês trabalharam o dia todo, mas dá a licença que estou arrombada”

 

((Sempre os diálogos e situações cotidianas que me cercam))

A caricatura da pobreza

Resumindo 1 – essa história era para ser uma atualização no Facebook, depois pensei em pôr no meu Tumblr e por fim pus aqui, no meu porta-aviões intelectual, que navega solitário num mar agitado.

Resumindo 2 – era dia de semana, último ou penúltimo trem da linha Japeri, que atende municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em geral pobres. Eu estava voltando dum encontro com os colegas da Engenharia no centro da cidade, estava num vagão cheio para o horário, num banco para oito pessoas, estavam sete pessoas confortavelmente sentadas.

Na estação São Cristóvão entram 3 travestis, buscam lugar para sentar e acham um ao meu lado e a mais velha pede as pessoas para se espremerem e diz a forte frase acima. Inevitável não escutar a conversa e tentar observar essa tribo (antes que eu pudesse notar o implante de cabelos que uma tinha, uma berra a uma velhinha “nunca viu não?!”; fiquei jogando no celular de cabeça baixa e escutando).

Resumindo 2.1 – elas falaram muitíssimo, muitíssimo mesmo sobre tudo, tudo mesmo. Eram, de facto, mulheres. E percebi que elas eram a parte visível da sociedade invisível dos menos favorecidos. Aprendi bastante da vida delas. E abordarei alguns pontos que possam interessar você, antropólogo leitor (não mencionarei, entre outras coisas, os tamanhos favoritos delas)(sim, falaram/berraram isso).

Resumindo 2.2 –  precisam de uma geladeira nova, pois a última foi destruída numa enchente.

Resumindo 2.3 – “servem” as comunidades da Mangueira e Tuiuti, que são favelas pacificadas¹, mas elas relataram que traficantes armados passeiam a luz do sol lançando indiretas às decorosas moças.

Resumindo 2.4 – a hierarquia é muito bem estabelecida e sua manutenção, rígida. Quem não segue as regras enfrenta corte marcial. E aparentemente o mesmo chefe das garotas garotas de programa também é o chefe das travestis garotas de programa.

Resumindo 2.5 – o programa “mais caro” com a “melhor moça” (com os mesmos adjetivos que usaram) custava pífios R$50,00 – preço de uma garrafa de vinho. Que isso?!? Não compreendo que sua dignidade custe R$50 #changeBrazil

Resumindo 2.6 – o item acima me deixou muito chocado.

Resumindo 3 – meu conhecimento acadêmico diz que só há produtos cujo mercado consumidor sustente a cadeia de produção; do meu mundinho de laboratório, não imaginava que houvesse mercado para elas (esclarecendo que eram prostitutas se você, meu cândido leitor, não notou)(sim, usei a Lei da oferta e demanda com pessoas, que apesar de triste é assim com qualquer profissão). Eis que um vendedor de amendoim sem os dentes começa a cantar a que estava no meu lado. Adam Smith estava inspirado quando bradou a mão invisível do mercado…

Eu desembarquei bem antes delas. Fim da história. Perpetuação da miséria humana, integração com as linhas do preconceito.

Com vossa licença, gostaria de repetir o subtítulo:

A caricatura da pobreza

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¹ http://www.uppsocial.org/territorios/ visto em 13/07/2014. Alemanha tetracampeã!

 

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