A mala em meu quarto

A 'Qualität' da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

A ‘Qualität’ da Engenharia dificilmente se aplica as interações sociais do povo alemão.

Num cantinho do quarto está a mala que eu trouxe cheia. Eu podia tê-la guardado dentro/em cima do armário ou debaixo da cama, mas sua presença serve para me lembrar que, embora esteja e hei de ficar um bom tempo aqui, eu não sou daqui. Meu lugar não é aqui.

Essa mala veio cheia de roupas, livros, quinquilhrias que poderão ser dispensados com algum grau de facilidade. Minha mente veio cheia de coisas que não podem ser jogadas fora. Minhas memórias, anseios, desejos, ao contrário, são sempiternos.

Esse post não poderia ter sido escrito noutro idioma. “A última flor do Lácio” é a língua que sou um fluente perfeito, a única em que posso fazer e entender todas as artimanhas literárias; habilidades que muito provavelmente eu nunca terei em outro idioma.

Passei uma semana na Dinamarca sozinho, uma semana sem falar a língua de Machado. Acreditem, foi angustiante.

No post de despedida eu disse que o blog seria a mais forte ligação entre mim e o Português. Não se mostrou bem uma verdade face a quantidade impressionante de brasileiros e alemães fluentes em português que encontrei na terra de São Beno.

Esse post não poderia ter sido escrito antes. Somente agora que as novidades já se tornaram rotina eu posso ter chances de reproduzir com certa fidelidade algumas das coisas diárias da vida na Alemanha. Não que a vida seja propriamente dificil ou fácil, é diferente.

Sair da zona de conforto, na qual vivi por 21 anos, exige uma enorme confiaça. Confiaça em mim mesmo, pois passo ser o maior agente que cuida de mim. Me pergunto se não demorei demais para tal.

Com alguma tranquilidade posso afirmar que construi uma nova (e muito diferente) zona de conforto. Minha rotina é estável, mas os riscos futuros que pretendo assumir são bem altos. Eu vou pagar para ver. Estou pagando e ganhando a banca, graças a Deus.

**–

A língua é apenas um entre vários fatores que definem a cultura dum lugar; por certo é o mais visível, que mais une, figura entre os mais importantes, porém não é único.

A grande sacada está em aprender a cultura sutil, aquela que não está nos livros, aquela que somente vivendo pode aprender (idioma eu posso aprender no meus país), como por exemplo saber a lógica das plataformas da estação de trem.

Nisso está a graça da vida, viver, vivendo, aprender, aprendendo, amar, amando, doer, doendo.

Nisso está a graça do intercâmbio, aprender vivendo, mesmo com uma mala te esperando.

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2 pensamentos sobre “A mala em meu quarto

  1. Espero que sua experiência aí seja a melhor possível, Lea! Com certeza estou aqui torcendo pelo seu sucesso e muito feliz com essa sua aventura 🙂
    Traga um alemão bem gato nessa mala pra mim. Rico, preferencialmente.
    Bisous (ops, isso é francês)

    • Obrigado, Carol ^^
      De fato a melhor forma de aprender é quando as coisas não saem com planejado, e como isso ocorre bastante, estou aprendendo bastante rs
      Já estou pensando em levar uma alemã, acho que mais um Deutsch não vai caber 😉
      Au revoir, digo, auf wiedersehen

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