Sob os céus da Cornualha

Na quadrilogia de Marion Zimmer sobre o Rei Artur, a Cornualha é representada como lugar onde o mar quebra, o céu é baixo, pesado, triste e frio. Exatamente igual ao céu da zona oeste, que pela primeira vez eu ousei desbravar sozinho.

Sempre tive grandes níveis de maturidade, responsabilidade e independência, porém quando estou com meus pais eu me ‘desligo’ automaticamente para economizar energia, regredir no tempo e ser inteiramente guiado por eles, como na infância. Vou contar-lhes o ocorrido nessa segunda-feira de carnaval (7/3/11) com maiores ou menores graus de detalhamento.

Fui criado num bairro da zona norte tipicamente residencial, maioria portuguesa e tudo o mais que possa derivar disso. Toda minha vida foi vivida no mesmo lugar, na mesma casa.

Quase sempre que venho à Pedra, eu venho de carro, vendo as riquezas da Barra da Tijuca; nas poucas vezes que vim de ônibus estava com meus pais, portanto no modo automático, fazendo comentários pontuais sobre as coisas, quase como um turista. Quando vim sozinho, com plena capacidade de processamento & sistemas de navegação on-line, eu vi um lugar bem diferente.

Isso começou na estação ferroviária do meu provincial bairro, sentido Santa Cruz. Não seria a primeira vez que embarcaria nesse sentido, mas sempre o fiz com objetivo de conhecer as estações (porque eu amo trens), em horário comercial non-rush e com tempo bom. Dessa vez eu desembarcaria numa estação, tinha um objetivo diferente. E resolvi prestar mais atenção na paisagem do que nas estações e na linda mulher sentada a minha frente, confesso que foi difícil tirar o olho dela, pois era de fato muito bonita.

Vencida a tentação, a paisagem fora das janelas do trem mostrou-se bucólica, montanhesca (com nuvens cobrindo o topo) e fria. Não sei se o bucolismo era fruto da pobreza que eu vi ou vice-versa: vastos campos verdes, crianças correndo na linha do trem, montanhas, casas antigas, vacas, cavalos, mais montanhas, mais crianças, casas e fábricas abandonadas, instalações do Exército, fazendas, esgoto sendo jogado em rios que não poderiam ser mais pretos, terrenos cujo quintais eram a própria linha férrea e mais crianças. Tudo isso sob um imenso céu pesado e baixo. Imaginei que o ar lá fora fosse fresco (exceto sobre o rio poluído; as janelas eram fechadas por causa do ar condicionado) e o estado de espírito tão simples quanto possível. Quase como uma viagem pelo interior, não visito pessoalmente essas terras-com-ar-bucólico pois infelizmente são terras onde o Estado não tem muito poder executivo, nem legislativo, nem judiciário, ou seja, é um lugar perigoso.

Chegando a minha estação destino, Campo Grande, vou para o ponto de ônibus esperar uma Kombi que me levará ao destino final. Aqui uma ponderação bem severa: não acho uma boa ideia usar ‘transporte complementar’ por várias razões que não convêm serem discutidas ou publicadas, mas se você vai procurar as linhas de ônibus no Guia4Rodas às 3h do dia anterior, com sono, você não terá muito sucesso e será forçado a usar a única rota que conhece… Mas nem era tão ruim, exceção da porta que precisava ser fortemente batida para fechar e uma janela quebrada.

Eu queria ter fotografado (porque eu amo fotografia), mas tanto no trem quanto no ‘transporte complementar’ eu tinha problemas práticos. Primeiro e comum aos dois modais, a câmera do celular não é muito boa para fotos em movimentos; segundo, eu não levaria uma câmera grande pois… bem, vamos a terceira e última; terceira, deveria ter trago minha compacta, não trouxe porque sou um idiota esquecido.

Descrever o trajeto de trem foi fácil, os adjetivos dizem por si e a brevidade das frases colaboram. Porem o caminho de Kombi não tem como descrever sem ocupar muitas folhas, por isso não narrarei todas as minhas impressões, reações e análises. De trem passei por N bairros, de Kombi passei só por duas grandes áreas da cidade – Campo Grande e Guaratiba –, mas tenho muito mais o que falar desse último caminho. Ah, se tenho!

Várias obras, umas grandes e outras pequenas. Destacava-se a construção de um shopping enormemente grande, um templo ao deus do consumo. O logotipo dele era o mesmo da operadora de refinados shopping centers da zona sul da cidade de São Paulo. Viadutos e túneis que servirão ao corredor de ônibus TransOeste. Muitos ônibus de ar-condicionado e executivos circulavam por lá. Várias casas, casebres e mansões. Vi também muitas palafitas usadas indevidamente; muitas igrejas pentecostais, sempre fechadas ou vazias. É no mínimo curioso ofertar produtos e serviços de luxo – ao menos supérfluos – em locais cuja grande maioria das pessoas é pobre, como se estivessem forçando algo, não sei…

Volto a por minha mão nesse texto depois de muito tempo. Acredito que as obras do shopping já tenham terminado, as obras do BRT seguem em ritmo acelerado. Nesse interim eu assisti Tropa de Elite 2, que simplesmente sistematizou algumas coisas que explicam o porquê de marcas caras, ônibus executivos, interesses de certos&certas, casas bonitas em um lugar com índices de pobreza tão altos. Mas também não pode deixar de se apontar que o consumismo, ambição sem planejamento, busca por status de uma classe média com salário de assalariado levem empresas a oferecem serviços típicos de regiões ricas. Esse ciclo, que se repete em quase toda zona oeste do Rio de Janeiro, é uma mistura perigosa de ilusão, falta de segurança, falsas promessas, esperança nebulosa. Não sei se nossas políticas de segurança pública e de assistência social darão certo. Só acho estranho pessoas usarem o cartão do bolsa família para jantarem nos restaurantes do Morumbi, Jardins, Vila Mariana… Não acho errado, apenas estranho.

Vamos voltar rapidamente aos trens, são mais simpáticos. Certa vez fiz uma excursão à imperial cidade de Petrópolis de… trem. Cortamos a cidade do Rio em direção a Magé. Passamos por paisagens silvestres, a linha de Vila Inhomirim tem muito mais verde que na linha de Santa Cruz, contudo eu poderia fazer quase os mesmos apontamentos. Piui piui.

E por fim cheguei ao destino. Ao descanso. A fuga do barulho do carnaval.

Eu realmente espero que a cidade possa passar por todas as brumas, manter a fé e chegar a Avalon. Merecemos isso.

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Tenho muita vontade de conhecer os promontórios da Cornualha, Inglaterra.

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Poderia tentar escrever sobre a quadrilogia. Essa obra me fez sentir como se tivesse visitado a Bretanha, conversado com seus personagens de forma muito íntima, tomado suas dores e preocupações. Senti-me tentado a trair Arthur. Senti-me tentado a trair Morgana. Senti-me como se amasse Gwenhwyfar. Sinto-me agora órfão daquele mundo. Sinto saudades também dos bons tempos que tinha enquanto eu vivia naquelas brumas e comia as maçãs de Avalon.

Vou pedir ajuda ao Merlin…

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