Esperança de setembro

Consideramos por si só evidentes as seguintes verdades: que todos os homens são criados iguais, que seu Criador os dota de certos direitos inalienáveis, que entre eles estão o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Que, para melhor garantir esses direitos, instituem-se entre os homens Governos, cujo poder deriva do consentimento dos governados. Que toda vez que uma forma de governo se torna prejudicial à consecução desses fins, é direito do Povo alterá-la ou aboli-la e instituir um novo Governo.

Uma nação deve julgada pelos méritos e objetivos de sua fundação. Por vezes, afasta-se da grandeza e nobreza de sua Declaração e Missão, os erros surgem, perpetuam-se, corrompem-na. Por mais que essa corrupção possa afetar as demais nações da Orbe, é uma garantia e obrigação indiscutível que esses erros sejam corrigidos por quem os causa, ajudados pelos prejudicados

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Lembro-me com grande definição de detalhes da tarde na qual tomei conhecimento. Estava na porta do curso de inglês, todos estavam em frente a TV na sala de espera, sintonizada na CNN onde letras brancas em fundo vermelho serviam de legenda para duas torres pegando fogo e desmoronando. Estava passando o replay da tragédia que logo eu entenderia, haviam jogado aviões contra prédios.

Eu tinha 10 anos, recém egresso da catequese cristã, onde aprendia que Papai-do-Céu era bom e queria que nós também fossemos bons. Nessa idade, as palavras terrorist, death, revenge, war que passavam ligeiro na tela não faziam muito sentido para mim.

Ao meu lado estava um colega, de nome Leonardo, que disse boquiaberto o que até hoje uso para definir aquilo: “Quanta irresponsabilidade”. Irresponsabilidade era obrigar nós – crianças hiperativas – a ficarmos parados, chocados, tristes, imaginativos sobre como alguém teria feito aquilo. Sobre como alguém obrigaria outros alguens a pular de janelas de um prédio em chamas. Quanta irresponsabilidade. De fato, Papai-do-Céu devia estar triste.

Na sala de aula, onde além da gramática inglesa aprendiamos um pouco da cultura americana, a professora nos mostrou no mapa onde ficava New York e Washington, D.C. – locais que sofreram os ataques. Eu já sabia onde ficava, sabia inclusive que bastava pegar um avião da American Air Lines para chegar lá. O que eu aprendi naquele dia não foi gramática ou ortografia, mas sim que a Columbia havia sido atacada; e que quando a Columbia é atacada, o Tio Sam vai a guerra.

A segunda cena que vem à mente quando penso nessa data são os lindos aviões F117 dos EUA pipocando bombas e morte sobre o Afeganistão. A artilharia antiaérea dos tempos da Guerra Fria é totalmente ineficaz contra os absurdamente modernos bombardeiros americanos, os F117 são apenas a entrada, o ataque pesado viria com os B2. Infelizmente é so na guerra que os lindos aviões podem voar como se vossem pássaros negros, vigários da morte. As letras e números da guerra para uma criança eram apenas um desfile sóbrio e indolor de letars e números; o link com a loucura e a dor da guerra seria feito somente alguns anos depois, quando essa guerra ainda está em curso.

Muitas e muitas outras lembranças e emoções me vem a mente quando lembro daquela terça-feira. Quantas vidas perdidas, sonhos destruídos, amores mortos. Isso tudo por quê? Vingança por essas mesmas coisas que os EUA fizeram em outros lugares, sim, mas nunca em nome de Deus – em todo o caso, devemos viver com essa culpa e essa dor. Culpa e dor de outrem. De alguma forma, esse país sempre teve forte influência em minha vida, seja por eles serem os melhores na profissão que escolhi, seja por propaganda bem feita, seja por aproximação cultural. Mas existe o determinate: eles têm a profissão que sempre sonhei ser quando criança. Só eles tem a profissão que minha mente infantil sempre quis – quando se mexe com a infância grandes e perpétuas marcas surgem. Não é astronauta, bombeiro ou veterinário. Têm a profissão de Diretor de Voos da NASA. Aqueles aviões também destruíram meus sonhos e ambições, pois se antes era difícil agora seria impossível.

O ano de 2001 tinha de tudo para ser um ano ordinário (por favor, leia a palavra em sua função original). Comemoria minha primeira década de vida (naquele tempo ainda fazia festa de aniversário, mas já pequenas. Hoje extirpei essas comemorações), estava passando uma novela boa (O Clone); o samba-enredo do GRES Tradição era bacana (do Sílvio Santos); era criança feliz, tinhas planos de criança. O fato de ser criança é especialmente bom porque tudo que acontece é bom, a blindagem que nossos pais nos oferecem é maior. Tudo é bom! Até então em minha existência nunca havia tido uma guerra. Em 2003, minha infelicidade ganha duas companhias, a tragédia com o ônibus espacial Columbia e outra guerra, com o Iraque. Eu nasci com os EUA em guerra contra o Iraque.

Por que a palavra guerra? Por quê?

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Das emoções sortidas que nos vem a mente quando pensamos nesses atos de guerra, nas traições dos propósitos de fundação, na maldade que começa desde cedo na vida das pessoas de tudo aquilo que é ruim, há somete uma que solicito a vos leitores.

Das análises sortidas que podemos fazer sobre as mudanças nas sociedades amaricana e ocidental no pós-atentado, das crises do petróleo, das vendas loucas de armas e bombas, há somente uma que solicito a vos leitores.

O aço retorcido, vira aço fundido, vira viga do novo edifício.

Quando a América foi decoberta, foi chamada de Novo Mundo, um lugar possível de começar um civilização nova, sem os erros e vícios da Europa, o velho mundo. Foi um mundo de promessas. Promessas não concretizadas contudo não enterradas.

Nunca se perca da Esperança. Mesmo que não habite a terra do livres e o lar dos bravos.

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