Aceitando as diferenças

Estava eu escutando as opções de alerta sonoro do meu celular quando me faço a seguinte pergunta: como pode alguém escolher esse barulho horroroso como toque? Como pode alguém ter esse gosto pavoroso?

Sempre existirá alguém que terá opiniões divergentes da minha. E por mais estranho que isso possa soar, eu gosto de saber opiniões senão a minha própria. Acredito que meus leitores mais de esquerda apontar-me-ão de hipócrita, volátil ou capitalista. Sob uma vista com menos detalhes pode parecer fazer sentido, pois de fato há vezes que defendo, por exemplo, o cerceamento da liberdade/pensamento*. Mas meu pensamento é congruente.

Isso não é contrassenso pois em situações excepcionais, atitudes excepcionais são necessárias. Não vejo lógica em tempo de guerra ver pessoas gastando energia criativa discutindo a cor da cabana (um pensamento idiota), tal qual não seria errado discutir as atitudes de guerra no período de pós-guerra. A História nos brinda com estórias de centenas de pessoas que se aproveitaram desses momentos para perpetuar seus poderes. A linha é tênue, pode ser facilmente ultrapassada se os governados não forem inteligentes. GUERRA É PAZ. O pensamento deve ser direcionado para coisas úteis à sociedade, esse direcionamento é livre.

Assegurado que todos estamos em acordo que tempos difíceis exigirem medidas difíceis, podemos prosseguir.

Uma das frases mais inquietantes que é ouço é “o meu direito termina quando o do outro começa”. Ok. E dai? O céu é azul, a roda é redonda e veneno mata. Ok. E dai? Embora essa frase seja verdadeira, e aplicável a minha pergunta inicial, é vã… Constata o óbvio, como a cor do céu. A pessoa, qualquer uma, tem o direito inalienável de por como toque a música que quiser. Eu tenho o direito inalienável de não ser obrigado a escutar músicas que não são de meu agrado. Como fica essa questão musical tão comum nos meios de transporte público? Quem tem o direito mais inalienável?

A frase supracitada, é retórica, não é uma frase que indica ou inflige ação, não incita cidadania – da mesma forma que a constatação da cor do céu não indica que a pessoa será astrônoma. Clamo novamente por minha simples e criticada linha de pensamento: pessoas sem a mais intrínseca noção do Contrato Social devem ser ensinadas o tanto antes, tão energeticamente quanto possível. Devem aprender que os limites de direito não são imaginários ou distantes, mas que são sim reais e imediatos, como o volume do celular. Não digo usar a força física nesse aprendizado, mas o alguém que escolherá um ringtone deve saber que está vivendo sob as regras do Contrato, que devem ser seguidas por todos. O limite da minha liberdade garante a ordem para eu ter liberdade. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.

Agora me vem a mente duas citações de dois livros. Minha capacidade de conectar os assuntos ou manté-los sempre na mesma linha é pequena, por isso requisito de você, leitor, usar um pouco do seu intelecto para não nos perdermos. Li que pessoas quando obrigadas a esolher entre liberdade e felicidade escolhem esta em detrimento daquela, mesmo que seja falsa e/ou temporária; li também que as pessoas sentem-se muito confortáveis ao viverem entre os pêlos do coelho, quentinhas e confortáveis sem se importar muito com o que passa fora de sua zona de conforto. Conheço muita gente, eu as vezes, que vive nesse estado de não discutir, de não defender os valores (não importa quais sejam, são seus valores!) por estarem entretida com o game ou com o blockbuster.

Eu não sou contra a ordem do mundo. Vejo, reconheço e vivo muitas coisas erradas, as quais desejo mudança. Algumas mudanças estou ajudando a fazer, outras só observando e muitas outras nunca verei. Mas existem coisas nesse universo que nunca mudarão, uma delas é a divisão social. Alguns camaradas tentaram e fracassaram um dia instaurar uma sociedade igualitária. Usaram-se da liberdade deles para tirar as de outras pessoas. Não deu certo.

Essa divisão (um entre vários outros exemplos de pilares que sustentam o mundo) embora seja grave, não é de caráter imutável. Você sabe que existe, finge que não existe, trabalha como existisse, e quando vê já não existe mais. [A África e Ásia surgem como locais intragáveis, onde essa regra é violada; alguns fazem questão de lembrar todos os dias essa divisão, explorando e matando em nome do dinheiro fácil – vejamos isso como ‘não saber reconher a existência dos limites da liberdade’]. Saber ignorar (até mesmo perdoar) faz parte. Mas reafirmo que alguns erros devem ser corrigidos/aniquilados com tanta severidade, que a energia despendida ofusca os resultados e isso é prato cheio para os da esquerda)

IGNORÂNCIA É FORÇA. Na Língua Portuguesa falada no Brasil tem uma expressão que talvez seja similar, “dar uma de joão-sem-braço”.

Aceitar as diferenças alheias implica: em viver vários momentos de litígio, o atrito social é inevitável; em se conscientizar que seus direitos não são maiores, melhores ou mais inalienáveis que de outrem; que para o bem comum, o ‘calar-se’ ajuda no processo da construção da cidadania. Embora tudo isso possa ser substituído pelo cacetete 😉 Ética, moral, religião, familia etc ajudam no processo de instauração de uma sociedade melhor.

*O que poderia ser pior, caro leitor, ter a liberdade de expressão ou a liberdade de pensamento cassada? Seria pior não poder falar o que pensa ou não poder pensar?

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Talvez o leitor mais atento tenha conseguido identificar o livro do qual eu extrai a linha desse post. Na verdade,  foi mais uma tentativa de traduzir os conceitos do âmbito político à esfera social.

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Quantos paradoxos vocês acharam? Não vejo paradoxos, pois cada atitude tem um par ação x momento. Se os momentos forem iguais com ações diferentes, eis um paradoxo. Exemplificando, jogar gás de pimenta em revoltosos loucos que queimam tudo e ameaçam a Ordem, OK; jogar gás de pimenta em pessoas lendo revista de fofoca na praça, NotOk.

**–

Respondendo a pergunta: ainda não sei o porquê alguém gosta de funk, mas sei que vários homens já morreram para defender o petróleo que sustenta a liberdade Ocidental, a liberdade de ouvir funk.

Qual cabeça pensa melhor

NOTA: O autor tem severas limitações ao lidar com o ‘plural’, mas se esforça. Também acredita que a educação, seja acadêmica seja social, é arma que mudará a sociedade.

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Um pensamento sobre “Aceitando as diferenças

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