Uma conversa no trem

Eu não gosto nem um pouco de conversar com estranhos na rua, em filas, transporte e lugares públicos. Quando as pessoas vêm falar comigo, limito-me a usar da educação básica e fim de papo. Pessoas bem treinadas como eu conseguem fugir e cortar conversas com incrível facilidade, mas as vezes as pessoas falam de forma tal que não há como escapar, comigo só conseguem se falam coisas com sinceridade e, principalmente, necessidade. Pessoas que simplesmente não têm com quem conversar… Isso é muito triste, especialmente quando não sabem viver solitárias, como eu sei.

Hoje na estação da Mangueira, habitualmente usada por estudantes da UERJ e pessoas de renda baixa, entram duas mulheres e uma criança: a mais velha com traços claros de cansaço segurando a criança e a mais nova, com semblante extremamente cansado. A senhora pergunta se o trem ia para Bangu, logo se adiantando a dizer que morava na Mallet (não faço ideia onde fica), digo que ia para Deodoro e passo-lhe as informações sobre a baldeação.

Não que aqui eu vá reproduzir com todos os detalhes o que ela me falou, mas também não me pediu silêncio de confissão. Curioso foi ela falar tão aberta, sincera e espontaneamente sobre sua vida. Achei importante compartilhar uma ínfima parte da vida dessas Mulheres.

Tudo começou quando pegaram um ônibus, enfrentaram a lentidão das vias da cidade – do lugar desconhecido ao Centro – onde a filha iria se consultar (a estrutura era avó>filha>neta), após isso foram à Vila Isabel, onde a neta tinha consulta médica; se confundiram sobre a melhor maneira de voltar para casa pois nunca tinham ido aquele hospital. Essa via crucis pela cidade sob o calor ainda não era suficiente para justificar o visível cansaço da filha.

Esta estava se recuperando de uma longa cirurgia e de seções de radioterapia, isso justifica plenamente o cansaço, tão exausta que não podia sequer cuidar da filha. Seus olhos estavam meios distantes, como quem busca algo, fixos em um ponto sem saber qual melhor caminho a seguir, ela nem sequer sabe se há caminho. A vívida cor do seu curto cabelo revelava sua pouca idade, cabelo naturalmente vermelho.

Uma alegre criança, totalmente alheia ao mundo que gira a seu redor. Diz-se que a única obrigação da criança é brincar e ser feliz; ela derrubou água no colo da avó ao brincar com a garrafa.

A avó foi quem nessa história me despertou mais sentimentos (embora a filha estivesse doente, a cura foi-lhe dada, faltava vencer a batalha). Mesmo sendo avó, não aparentava passar dos 50; de olhos verdes, não brilhantes, mas austeros; de mãos um pouco enrugadas e calejadas, sinal de seu esforço para dar maior dignidade às suas amadas. Mesmo tendo no rosto leves traços de cansaço, buscava trabalhar, ajudar e sobretudo amar. Grande tristeza senti sobre o tom de desabafo com que ela falou-me, como quem quisesse ser ouvida, quem precisasse ser ouvida!

Muitos outros detalhes ela falou. Pedi que Deus lhes protegesse e desse forças e muita Paz.

Outras pessoas já me abordaram para falarem de suas vidas, histórias muito tristes, muito pesarosas muito humanas, mas nunca me tocaram tão fundo.

Espero que tenham chegado bem a seu longínquo e misterioso destino. Despedi-me delas dizendo:

Vão com Deus e com Nossa Senhora.

Vocês, meus amados leitores – que são em grande parte de classe média -, que têm facilidade de locomoção pela cidade, cursam faculdade, amam e são amados, fazem as refeições básicas, têm futuro. Já pararam por um mínimo minuto para agradecer aqueles que lhe deram vida, sustento, ajuda, insumos de todas as ordens, carinho, essas coisas em maior ou menor grau? E acima de tudo, agradecer a Deus? Agradecer faz parte do portfólio de educação e amor básicos.

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Um pensamento sobre “Uma conversa no trem

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